A riqueza que diferencia: em Deus e em Mamom

Hollis Phelps, 20 de dezembro de 2019. Originalmente publicado em inglês, em https://christiansocialism.com/a-wealth-that-differentiates-god-mammon/

É predominante no Cristianismo o entendimento de que a riqueza individual não se trate de um problema em si mesma. Nada haveria nela de essencialmente errado ou, numa palavra mais pesada, de mau. Afinal, importaria, ao fim, como usar sua riqueza individual em relação aos outros, como se conduzir intimamente a respeito dela.

Clemente de Alexandria dá expressão por excelência a essa visão. Em “Quem é o homem rico que pode ser salvo?”, ele argumenta que o dinheiro é apenas um instrumento, um passivo objeto, que não teria seu próprio valor moral. Enquanto for subserviente a nós e não nós a ela, a riqueza individual poderia ser boa para todos, pois forneceria a seu dono os recursos para “dar comida aos famintos e bebida aos sedentos, vestimenta aos nus e abrigo aos sem teto”. Posto de outra forma, quando o desejo de alguém com relação ao dinheiro estiver adequadamente moldado – isto é, formado e dirigido por Deus – o uso do dinheiro pode acabar assumindo matizes da própria Graça.

Se o objetivo for a assimilação à sociedade e suas demandas, então faz sentido encontrar um lugar para a riqueza individual, justificando-a teologicamente, tanto na teoria quanto na prática. Riqueza é poder e poder é riqueza, e se alguma instituição, incluindo instituições religiosas, quiser estar do lado certo do Estado, ela deve, em última instância, apoiar essa visão, abrindo espaço literal e metaforicamente para que a riqueza individual floresça. A riqueza individual torna-se, então, boa. Na verdade, necessária para o bem-estar geral da pólis, frequentemente sustentada, de diferentes maneiras, pelas instituições religiosas; que, também frequentemente, recomendam caridade no plano individual.

A caridade tem, em todo caso, uma ajuda limitada para os indivíduos, já que qualquer ajuda por ela fornecida sempre ocorre dentro de um sistema socioeconômico mais amplo, que pressupõe uma injusta distribuição das riquezas e um acesso igualmente injusto aos recursos produzidos. A caridade pressupõe, portanto, o que o teólogo mexicano José Porfirio Miranda de la Parra chamou de “riqueza diferenciadora”, isto é, o tipo de riqueza que é injustamente acumula por uns contra outros. Diferenciar esses tipos de riqueza esclarece a divisão da sociedade entre ricos e pobres, merecedores e não merecedores, salvos e condenados.

Miranda de la Parra argumenta que, em última análise, não há maneira legítima e moral de acumular riqueza individual, mesmo quando ela não ultrapassa os limites da legalidade: em algum ponto ao longo dessas fronteiras, ela terá dependido direta ou indiretamente do empobrecimento de outros. Para usar um exemplo pessoal, é certo que meu salário, pelo menos até onde eu sei, não depende diretamente da exploração em massa do que é eufemisticamente conhecido como “mão de obra terceirizada”. No entanto, depende dos achatados salários da equipe de serviços gerais, entre outras condições precárias de trabalho. Para não levar em conta o fato de que uma boa parte dele será utilizada em bens produzidos numa cadeia de abastecimento global dependente da desigualdade estrutural e da opressão.

É fácil considerar bilionários e multimilionários exemplos de ganância e de um sistema que deu errado, e eu concordo: uma conjuntura político-econômica que lhes permite surgir, considerada a carência generalizada, é inerentemente injusta. Mas todos nós também participamos desse sistema, mesmo que alguns dos atores sejam mais culpados do que outros e, como tal, mais dignos de nossa ira coletiva. Não devemos, no entanto, usar isso como uma desculpa para ignorar as formas mais difundidas e, às vezes, sutis que diferenciam as riquezas, efetivamente cegando-nos para nossas responsabilidades para com os outros em um sistema econômico injusto.

A parábola de Jesus sobre o “Homem Rico e Lázaro” (Lucas 16: 19-31) é instrutiva aqui. Enquanto o homem rico da parábola mora confortável em sua casa o dia todo, com todas as suas necessidades atendidas, um homem pobre chamado Lázaro está doente e faminto do lado de fora do portão da casa. Ambos eventualmente morrem, mas seus respectivos destinos pós-morte revertem sua sorte terrena: Lázaro é “levado pelos anjos para estar com Abraão” (Lucas 16:23) enquanto o homem rico se encontra atormentado no Hades. O rico clama por misericórdia, mas não há misericórdia, pois ele sabia, por meio de “Moisés e os profetas” (Lucas 16:29), sobre suas responsabilidades para com o pobre e para com a pobreza em geral. Ele já recebeu, em seu conforto terreno anterior, qualquer “misericórdia” que possa ter pensado merecer.

O que é interessante sobre a parábola é que o homem rico não faz nada de errado individualmente. Ele não retém nada intencionalmente do homem pobre, não o oprime ativamente ou explora seu trabalho. Em todo caso, sua riqueza o cega para a existência da pobreza: ​​ele nem mesmo vê aquele pobre e, portanto, é culpado por ignorá-lo. É o próprio diferencial econômico entre o rico e o pobre que impede o primeiro de agir com justiça em relação ao segundo. A riqueza individual mesma é o problema, o que nos leva a entender que está aí sugeria uma solução que não será encontrada apenas na reformulação do desejo individual, mas numa justiça que repare o diferencial econômico.

Isso é, mais ou menos, o que Jesus quis dizer, eu acho, quando disse “Nenhum escravo pode servir a dois senhores; pois ou odiará um e amará o outro ou será devotado a um e desprezará o outro. Você não pode servir a Deus e às riquezas [Mamom] ”(Lucas 16:13; cf. Mt 6:24). A maneira como normalmente lemos essa parábola embota sua força, colocando Deus e Mamom em uma relação hierárquica entre si. Quando Jesus diz “Você não pode servir a Deus e às riquezas”, ouvimos algo como “Sirva a Deus antes das riquezas” ou “Sirva a Deus com as riquezas”. Certamente é assim que Clemente de Alexandria entendeu a declaração, conforme mencionado acima, e foi também assim que procederam as principais correntes das tradições teológicas e eclesiásticas cristãs.

Para Jesus, no entanto, a relação entre Deus e as riquezas não é de prioridade mas de disjunção: é Deus ou as riquezas! Porque não se pode servir aos dois simultaneamente. Diferenciar a riqueza força nossa mão em direção a Mamom, gostemos ou não, desejemos ou não. Aqueles de nós que se beneficiam de um sistema econômico que nos permite acumular riqueza relativa por meio e contra os outros são o homem rico na parábola de Jesus, uma vez que confiamos nossa sorte ao dinheiro, não a Deus.

A dificuldade das reivindicações de Jesus com relação à riqueza individual, a respeito da disjunção entre Deus e dinheiro, não deve ser uma desculpa para suavizá-la visando aliviar nossas consciências; nem deve servir como desculpa para a falta de ação. Em vez disso, deve nos incitar a pensar e agir de outra forma com respeito à riqueza e ao sistema econômico que torna sua acumulação individual possível. A caridade pode ser mais fácil, mas a solidariedade nos aproxima do que Jesus quis dizer. Certamente Ele estabelece um padrão elevado, mas também nos lembra que é possível, contanto que nos alinhemos corretamente em relação à disjunção estabelecida.

Hollis Phelps é Professor Assistente de Estudos Interdisciplinares na Mercer University. Seu livro mais recente é Jesus and the Politics of Mammon, publicado pela Cascade Books.

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