Pentecostalidade Integral. Todos devemos ser pentecostais! – Juan Stam (tradução)

Pentecostalidade Integral. Todos devemos ser pentecostais! (como descreve Atos 2) – Juan Stam (tradução) – http://juanstam.com/dnn/Blogs/tabid/110/EntryID/481/Default.aspx

O dia de Pentecostes é paradigmático para a Igreja de todos os séculos. Nele, Deus marcou a Igreja para sempre com seu caráter carismático, bíblico e profético. Era um dia tão importante que Cristo ordenou a seus discípulos ficarem sentados em Jerusalém até que tivesse se cumprido (Lc 24.49, kathísate). A missão não pôde iniciar-se sem o dom pentecostal. A Igreja é igreja porque é pentecostal. É fiel a sua natureza e missão somente quando é fiel a sua origem em Pentecostes.

O capítulo dos Atos nos ensina um pentecostalismo integral. O derramamento do Espírito (2.1-13) está acompanhado por uma clara exposição da Palavra de Deus (2.14-36), que resulta em muitas conversões (2.37-41) e numa comunidade radicalmente transformada (2.42-47). O Pentecostes começou, mas não terminou, com o dom de línguas. Muito mais que a impressão do fenômeno das línguas, o segredo de seu poder foi a força da Palavra e a prática evangélica que ela inspirou. Se houvesse sido língua e nada mais, não haveria sido Pentecostes.

O Pentecostes nos ensina que a igreja vive dos dons do Espírito, entre eles o das línguas. As línguas nesse momento eram um sinal, apropriado para a ocasião, do derramamento inicial do Espírito sobre a Igreja, quando “todos foram cheios do Espírito Santo” (2.4). O Espírito é a vida comum do corpo de Cristo e distribui seus abundantes dons a todos os membros, “repartindo a cada um como ele quer” (1 Co 12.7-13) [1]. Sem esses dons, a Igreja não pode viver nem cumprir sua missão na terra.

O dom de línguas em Atos 2 toma um claro sentido missionário e evangelístico. É importante notar que, diferente de Corinto, aonde as línguas eram extáticas e ininteligíveis (1 Co 13.1; 14.2), em Atos 2 o com consistia em idiomas humanos, de todas as nações identificadas na passagem (2.9-11). O texto nos conta que cada um ouvia aos apóstolos “em nosso próprio dialeto” (2.5, dialecto), “em nossa língua de nascimento” (2.8, cf. 2.11). Por outra parte, Pedro lhes prega em alguma língua comum (certamente, um grego precário, com forte acento galileu) e a multidão o podia entender. Sua comunicação foi tão eficaz que três mil pessoas se converteram. Os galileus eram famosos por pronunciar mal seu próprio idioma (Mr 14.70). Sem dúvida, no dia de Pentecostes o Espírito capacitou a esses galileus para glorificar a Deus em muitos idiomas estrangeiros e abençoou o grego precário de Pedro com invejáveis resultados evangelísticos.

O contraste chama atenção. Por uma parte, uns galileus, “sem letras e do vulgo” (Atos 4.11), aparecem por um momento como brilhantes linguistas, mas, em continuação, Deus abençoa o grego deficiente de Pedro para uma evangelização impressionante. Então para que esse prévio dom de línguas?

O testemunho missionário da igreja, ainda antes do sermão de Pedro, se iniciou quando os apóstolos proclamaram “as maravilhas de Deus” nos idiomas de todas as nações presentes (2.11). Parece que na sabedoria de Deus os gentios tinham que escutar o Evangelho primeiro nos acentos autênticos de sua própria cultura e em sua língua materna. Nenhum idioma, nem o hebreu nem o grego nem o latim deve considerar-se o idioma oficial do Evangelho. Quando o Evangelho chega a um povo, a única cultura a que pertence deve ser aquela mesma do povo que recebe a mensagem. O Evangelho se encarna com fidelidade na autêntica idiossincrasia de cada povo. Por isso, ser pentecostal significa ser contextual e autóctone. Impôr alguma língua estranha ou padrões culturais estrangeiros é anti-pentecostal.

Às experiências carismáticas devem se seguir a exposição da Palavra (2.14-36), a proclamação do Evangelho para a conversão das pessoas (2.37-40). A pregação bíblica de Pedro não era menos pentecostal e carismática que os anteriores fenômenos de glossolalia. Ainda que Pedro não teve oportunidade para preparar seu sermão [2], escolheu muito acertadamente seus textos do Antigo Testamento: Joel 2.28-32 junto com Salmos 16.8-11 e 110.1. Esta mensagem de Pedro mostra as características de um bom sermão expositivo. Como resposta a uma situação não antecipada, começa contextualmente (2.14-15). Se embasa solidamente em textos bíblicos apropriados. Ainda que sua ocasião foi o derramamento do Espírito e o dom de línguas, não é um sermão sobre línguas, nem ainda sobre o Espírito Santo, mas sobre Cristo (2.22-35), interpretando os fenômenos carismáticos cristologicamente (2.33). O sermão se conclui com uma afirmação contundente do senhorio de Cristo (2.35). A Palavra pregada foi tão poderosa que os ouvintes clamaram arrependidos “que faremos?” (2.37), diante do que Pedro estendeu um convite evangelístico (2.38-40) e três mil se converteram (2.41).

Sem pregação bíblica, que exponha cuidadosamente o sentido fiel das Escrituras, como fez Pedro, não se é pentecostal. Muitas vezes, em nossos dias, a “celebração” e as experiências sensoriais deslocam a fiel exposição bíblica. Não foi assim no dia de Pentecostes. Ser pentecostal, segundo o capítulo dois dos Atos, significa “perseverar na doutrina” (2.42) e edificar biblicamente à congregação com sólida pregação expositiva. A pregação bíblica é um elemento essencial da pentecostalidade.

O final do capítulo nos apresenta um terceiro elemento essencial da pentecostalidade: uma comunidade radical, que pratica a fé até às últimas consequências (2.42-17). Na nova comunidade de fé, perseverarão na doutrina, na comunhão, no pão compartilhado e na oração (2.42). Era uma comunidade integral e balanceada. Tinham o povo a seu favor (2.47) ao mesmo tempo em que as maravilhas e sinais na comunidade provocavam temor e respeito. E, o mais surpreendente e maior prova de autêntica pentecostalidade: tinham todas as coisas em comum (2.44) “e ninguém dizia ser seu próprio nada do que possuía” (4.32). Até vendiam suas propriedades para financiar os projetos sociais da comunidade (2.45; cf. 4.32-37).

A maior prova da autenticidade do que aconteceu no dia de Pentecostes foi o que aconteceu no dia posterior a Pentecostes. Os recém convertidos receberam o Espírito (2.38) e em seguida praticaram a justiça social e econômica, como manda a palavra de Deus. O projeto pentecostal incluiu um programa de programa de alimentação populares (6.1) [3].

Alguns pensadores judeus relacionavam o dia de Pentecostes com o ano do Jubileu (Lv 25), no qual Israel teria de repartir equitativamente toda a terra [4]. O Jubileu era o ano cinquenta e o Pentecostes era o dia cinquenta, de modo que correspondia, dentro do ano, ao que era o Jubileu dentro do século. Além disso, numa passagem claramente “jubilar”, o profeta anunciou o dom do Espírito e boas novas para os pobres no “ano agradável do Senhor” (Is 61.1-3). Jesus aplicou esta passagem, no mesmo sentido, em seu sermão inaugural em Nazaré (Lc 4.16-21; cf. 7.18-23). No Pentecostes, o Espírito Santo veio sobre a Igreja, novo corpo de Cristo, e em seguida a prática do Evangelho, no poder do Espírito, trouxe “boas novas para os pobres”.

O terceiro momento do Pentecoste, segundo o capítulo dois de Atos, é uma comunidade radical, que pratica o Evangelho sem reservas, conforme o modelo do ano do Jubileu. Sem isso, não se é pentecostal, por muitas línguas que se fale… sem Jubileu econômico, não há Pentecostes!

Deve ser impossível para um cristão ser anti-pentecostal, no sentido bíblico desse magno acontecimento. Mas tampouco se deve permitir que o bonito título de “pentecostal” se limite a um só dos aspectos do dia de Pentecostes ou a uma só corrente dentro do cristianismo evangélico. Pentecostais somos todos!

Contam que um evangelista dizia uma vez que não tocava nos problemas políticos porque “Deus me chamou ao ministério evangelístico, não profético”. Pelo contrário, Deus chama toda a Igreja e a cada crente a uma presença profética em meio ao mundo. A Igreja, como dizem Arens e Díaz Mateos (2000: 288), é uma comunidade de profetas e testemunhas. Deus encarregou Ezequiel de profetizar de tal maneira que, ainda que o povo não creia, “pelo menos saberá que entre eles há um profeta” (Ez 2.5). Onde está a Igreja, as pessoas devem dar-se conta de uma presença profética em seu meio [5].

É certo que o Novo Testamento ensina também uma vocação pessoal de alguns crentes ao ofício profético (Ef 4.11), e afirma que nem todos são profetas, assim como nem todos são apóstolos nem mestres (1 Co 12.29) [6]. A estes profetas Deus pode dar revelações diretas para a Igreja (1 Co 14.29-31). Sempre que se dão tais revelações no culto, a congregação inteira, enquanto comunidade também profética, deve julgá-las (14.29). Como os profetas do Antigo Testamento, esses profetas trazem uma mensagem direta de Deus (não necessariamente preditiva) para o povo de Deus. A vocação específica deles é uma expressão mais concentrada do caráter profético de toda a comunidade.

Apocalipse 10.1-11 é um interlúdio entre a sexta trombeta e a sétima, sobre a missão profética da igreja em tempos de crises e tribulação. Se dedica primeiro à missão profética do próprio João, como um desses profetas “de ofício”. João tem que comer o livrinho que está nas mãos do poderoso anjo (10.8-10; cf. Ez 2.9-3.3), com o qual Deus lhe renova sua comissão de “profetizar sobre muitos povos, nações, línguas e reis” (10.11) [7]. A segunda metade do interlúdio (11.3-13) trata do testemunho profético da Igreja inteira, representada pelas testemunhas, cujo poder não está fundamentado em soprar fogo mas no morrer e ressuscitar de com Cristo [8]. Há um amplo consenso entre os comentaristas que elas representam o testemunho profético de toda a comunidade.

Como João e as testemunhas, a Igreja de hoje é chamada a profetizar sobre as nações e governos de nosso tempo (Ap 10.11; 11.3-13), ainda que isso signifique atormentar o mundo inteiro (11.10) e até entregar nossas vidas em martírio (11.7-10). Uma Igreja que se cala diante da corrupção e injustiça, que não incomoda a ninguém, buscando apenas ficar bem como todos, é uma Igreja infiel e covarde. E na primeira fila dos que não entrarão no Reino de Deus, segundo o Apocalipse, estão os covardes (Ap 21.8).

A tarefa profética toma a forma de palavra e ação. Os antigos profetas geralmente acompanhavam sua palavra de denúncia e anúncio com gestos simbólicos também proféticos. Essas ações proféticas muitas vezes foram pré-formativas, para fazer realizar-se a profecia, e em outros casos funcionavam como parábolas que esclareciam sua mensagem. O profeta João realizou uma ação simbólica antes de receber seu mandato de profetizar (10.10, comeu o rolo) e em seguida se lhe ordena a realização de outra (medir o santuário, 11.1-2). Em contraste, o ministério das duas testemunhas (11.3-13) parece ser de pura ação profética, pois não pronunciam nem uma palavra em todo o relato. A profecia sempre deve manter essa correlação entre palavra e ação. Como diz a canção, “não basta orar”, nem basta somente a profecia verbal sem a ação profética (ora et labora; “a Deus orando e com o martelo dando”).

O povo de Deus está chamado a ser uma comunidade pentecostal, carismática e profética. Está a Igreja evangélica na América Latina disposta hoje a assumir este desafio? Que Deus nos ajude a ser fieis e valentes, com essa presença profética que nos exige sua Palavra, como também nosso momento histórico.

NOTAS

1) Posto que o Espírito divide seus dons entre todos os membros do corpo, não devemos distinguir entre cristãos “carismáticos” e outros que supostamente não o são. Segundo o Novo Testamento, todo cristão é carismático.

2) Deixamos de lado a pergunta sobre até que ponto o sermão é de Pedro mesmo ou até que ponto pode ser redação de Lucas, já que não afeta nosso argumento.

3) Este projeto de assistência aos pobres de Jerusalém foi muito importante na fase final da missão de São Paulo (Ro 15.26; 1 Co 16.1-4; 2 Co 8-9; Atos 20.22-25; 21.11; cf. Ga 2.10).

4) Associado com o Jubileu estava o sábado da terra, cada sete anos, em que deviam ser canceladas todas as dívidas e liberados a todos os israelitas sob servidão (Dt 15).

5) Não se deve deixar de ler, com muita oração, o substancial capítulo (que nos parece em si mesmo profético!) de Arens e Díaz Mateos, “Profeta, testemunha e mártir” (2000:437-452).

6) Deve ficar claro que não estamos afirmando que todos os crentes são profetas, mas que a Igreja como tal está chamada a ser uma comunidade profética. A ênfase em Atos 2 sobre a universalidade do dom pentecostal, que se estende a todos e a todas na comunidade, mostra que ainda os que não são “profetas” por vocação estão chamados a ser “proféticos” como membros do corpo de Cristo.

7) Chama a atenção que somente aqui essa fórmula quatripartida menciona “reis”, o que dá à comissão de João uma ênfase mais forte no aspecto político. De fato, em continuação João vai denunciar a diferentes reis, sobretudo os imperadores romanos (capítulos 13-19).

8) No Apocalipse, “testemunha” (mártus) costuma sugerir martírio (1.5; 2.13). O testemunho profético das duas testemunhas consiste sobretudo em sua morte, vitupério e ressurreição.

BIBLIOGRAFIA

Arens, Eduardo y Manuel Días Mateos, Apocalipsis: la fuerza de la esperanza (Lima: CEP, 2000).

Blenkinsopp, Joseph, “Profetismo y profetas” en Comentario bíblico internacional, William A. Farmer, Armando Levoratti et al ed. (Estella: Verbo Divino 1999), 867-872.

Fee, Gordon y Douglas Stuart, La lectura eficaz de la Biblia (Miami: Editorial Vida, 1985)

Rofé, Alexander, “Jeremiah” en HarperCollins Bible Dictionary, Paul J. Achtemeier ed (HarperSanFrancisco 1996), 490-492.

Stam, Juan, Apocalipsis y Profecía (Buenos Aires: Kairós, 1998).

Stam, Juan, Apocalipsis (Buenos Aires: Kairós, 1999).

Vine, W.E. Vine’s Complete Expository Dictionary of Old and New Testament Words (Nashville: Thomas Nelson, 198

Por Juan Stam

Revisado junio 2017

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