NECESSIDADE URGENTE: UMA TEOLOGIA DA VIDA E DO PODER – Juan Stam (tradução)

NECESSIDADE URGENTE: UMA TEOLOGIA DA VIDA E DO PODER – Juan Stam (tradução) – http://juanstam.com/dnn/Blogs/tabid/110/EntryID/495/Default.aspx

 

Apocalipse 4 nos oferece uma bela Teologia da Vida e da Criação e uma surpreendente Teologia do Poder. Nessa passagem, estabelece-se o cenário celestial para um grande culto, que será  realizado (de fato, para o livro todo). Para tanto, João tomou muitos elementos de fontes anteriores e os articulou genialmente num esquema simétrico muito original, de incomparável beleza e profundo significado teológico. Ali são introduzidos alguns dos personagens que, centrais, figuraram até o final do livro. Com linhas decisivas e acertadas, consegue “reconstruir” o universo simbólico dos fieis, o que faz estabelecendo enfaticamente o centro definitivo de tudo: o Trono com seu glorioso Ocupante. Depois, vai organizando toda a realidade em sucessivos círculos concêntricos, a partir do Trono central e seu arco-íris, até os quatro viventes, os 24 anciãos com duplos tronos, e, depois, até a vastíssima multidão angelical (5.11). Finalmente, o cosmos inteiro – tudo “ao redor do Trono” (4.4,6; 5.6,11).

 

Com o símbolo central do Trono, e com sua correspondente periferia de 24 tronos e 24 governantes (“anciãos”), João articula para os fiéis um conceito revolucionário do poder. Com os quatro viventes, inseridos no centro da visão celestial, ganha foco uma Teologia da Criação e da Vida.

 

A visão do Trono e dos 24 governantes nos revela a origem e o centro de todo poder e autoridade, aonde quer que existam em todo o universo. No centro, há um Trono e somente um Sentado (kathêmenos 4.2,3); obviamente os demais “tronos” e “sentados” (kathêmenous 4.4) derivam seu poder por delegação do “poder central” (cf Ro 13.1-2). O que está sentado no Trono não pretende “monopolizar” o poder mas compartilhar o governo do universo com sua “equipe de trabalho”, as autoridades estabelecidas para governar com ele [1]. Em toda a Escritura, esse é um reino de poder participativo. Deus não se senta ameaçado ou ameaçando a existência de outros tronos e o demais “sentados” o rodeiam. O Ocupante do Trono designou esses “magistrados inferiores” para buscarem, juntos, a Justiça em toda a Criação (Ro 13.3-6).

 

Precisamente porque Deus mesmo, não qualquer autoridade criada e finita, ocupa o centro definitivo deste “organograma” de poder cósmico, dentro do esquema divino não pode existir a idolatria do poder totalitário [2]. Quando o poder é teocêntrico todas as autoridades servem ao “Reino de Deus e sua Justiça” para que a vontade justa e benévola de Deus seja feite na terra como no céu. Mas quando os “poderes derivados”, celestiais e terrestres, pretendem independentizar-se do Trono Central, rompe-se o esquema divino e se produz desordem e injustiça dentro da Criação. Seria como se um dos anciãos se cansasse em algum momento de estar ajoelhado diante de Deus e quisesse se sentar em seu trono, crendo ser seu. Depois, outro ancião faria o mesmo e terminariam arquitetando uns contra os outros na usurpação do Trono Central.

 

Chama atenção que imediatamente próximos ao Trono, ainda mais que o círculo de anciãos, estejam os quatro seres viventes (4.6b-8a).  Nisto vemos que a vida é o mais próximo do coração de Deus. Por isso nossa Teologia tem que ser, em verdade, uma Teologia da Vida não uma “necrologia”, a serviço da opressão, do militarismo e da morte. Nosso Deus é o Criador, Fonte e Sustentador da vida, inimigo e vencedor da morte.

 

Mas, há algo mais: neste quadro, podemos ver que o poder que Deus delega aos “tronos periféricos” tem que servir à vida e não à morte, à justiça e não ao pecado (cf Ro 13.3-5). Entre os anciãos e Deus, está como mediação a vida, simbolizada pelos quatro seres viventes. O acesso dos “sentados” ao Trono central está mediado pela presença dos quatro viventes, interpostos no círculo externo de autoridade e o Trono que lhes outorgou seu poder. O mais próximo a Deus é a vida mesma; a toda outra forma de autoridade criada, está dado servir a Deus servindo à vida que Deus compartilhou com suas criaturas.

 

O desenho divino da Criação é: “tudo aquilo que respira” adora ao Criador da Vida.  Para  isso Deus nos deu alento, para isso existimos. O cristão, mais que ninguém, deve poder com Violeta Parra:

 

“¡gracias a la vida, que me ha dado tanto!” [https://www.youtube.com/watch?v=w67-hlaUSIs]

 

Ainda mais: o cristão conhece o Autor da Vida. João de Patmos, prisioneiro em risco de morte, viu a importância  de adorar a Deus não somente como Salvador como também criador do leão, do boi, da águia e da humanidade [3].

 

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[1]) Este princípio divino de poder participativo aparece pela primeira vez em Gn 2.19, quando o Criador, que segundo Gn 1 “nomeou” todas as coisas, agora permite à criatura colaborar com Ele, nomeando e significando o criado.

[2]) Cf. as duas árvores que ocupam o centro do Paraíso (Gn 2.9); quando Adão e Eva destituíram a Deus como autoridade central e norma non normata axiológica, perderam o paraíso e caíram no caos de um universo egocêntrico e por fim excêntrico. Se o plano cristocêntrico se expressa na “adoração do Cordeiro” por Jan van Eyk, a desordem caótico e ex-cêntrico do abuso demoníaco do poder se plasma com força comovente na “Guernica” de Pablo Picasso [http://www.markwk.com/teaching/lessons/quino-picasso-%20guernica/quino-esl-lesson.html].

[3]) O paradoxo trágico da “vida” se vê no fato de que pouco tempo depois de haver escrito “gracias a la vida”, Violeta Parra se quitó la vida suicidando-se.

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