O GÊNERO LITERÁRIO APOCALÍPTICO – Juan Stam (tradução)

O GÊNERO LITERÁRIO APOCALÍPTICO – Juan Stam (tradução) – http://juanstam.com/dnn/Blogs/tabid/110/EntryID/119/Default.aspx

 

Qualquer pessoa, mesmo um pré-adolescente, ao tomar em suas mãos um dicionário sabe, de antemão, que esse livro tem que ser lido de uma maneira especial, muito diferente da maneira que se leria uma novela, um texto de química ou um poemário. Se toma nas mãos um guia telefônico, vai entender que esse texto, sim, pode ser lido de uma basicamente similar à do dicionário: buscando uma informação muito específica, organizada em forma alfabética. A única diferença é que no dicionário alguém está buscando definições de palavras e num guia telefônico os números das linhas que correspondem a cada nome.

 

No simples ato de abrir um dicionário ou guia telefônico, o leitor comum já está praticando a “análise de gênero”. Por “gênero” entendemos, pois, a categoria literária a que pertence determinado texto, o tipo de texto que é e a forma que deve, portanto, ser lido.

 

Antes de ler qualquer texto, é absolutamente fundamental saber a que “gênero literário” pertence. Ler um dicionário como se fosse uma novela, por exemplo, seria um esforço bastante frustrante; ler um texto de química como se fosse uma novela amorosa não excitaria em nada a química da adrenalina romântica. Um texto de história e uma novela histórica se parecem muito, e ambos pertencem à categoria narrativa, mas têm diferenças essenciais que tornam forçoso que sejam lidas de maneiras distintas.

 

Na vida diária entendemos quase intuitivamente que tipo de escrito é cada texto, e o lemos conforme as regras de seu gênero literário, mas na leitura da Bíblia costumamos confundir esse assunto e acabamos lendo muitos escritos conforme gêneros que não têm. Por exemplo, quase sempre esquecemos que a maior parte da literatura profética hebraica está escrita em verso, não em prosa. Assim é que acabamos lendo Cantares como se fosse uma alegoria da igreja e não um drama romântico… A muitos leitores passa despercebido a lógica especial de Eclesiastes como um tratado teológico-filosófico, que expõe uma filosofia atrás de outra, refutando-as uma a uma. Os evangelhos são lidos como se fossem biografias em vez de escritos testemunhais das Boas Novas. Ao lermos as epístolas esquecemos que são cartas pessoais ocasionais e não ensaios abstratos de teologia. E o pior dos casos: se lê o Apocalipse como se fosse mera previsão, páginas de história escrita com antecedência ao invés de palavra profética do Deus do céu.

 

Algumas definições básicas

 

Um entendimento claro e preciso de certos termos-chave é indispensável para poder compreender com correção o gênero literário apocalíptico, e concretamente o Apocalipse de João. Entender mal estes conceitos resultará quase inevitavelmente em interpretações erradas e até mórbidas desses escritos.

 

O primeiro termo, quase sempre mal entendido, é a palavra profecia. Na linguagem popular de hoje, a ainda quase universal entre cristão que conhecem algo da Bíblia, o profético se entende como o que prediz o futuro e a profecia é tomada como um sinônimo de previsão de coisas que virão, especialmente quando remotas, ao final da história. Em verdade, este é o conceito pagão dos antigos oráculos ou de autores como Nostradamus. Os que partem desse mal entendido do que seja a profecia, terminam também mal interpretando os escritos apocalípticos.

 

A primeira pessoa descrita como “profeta” na Bíblia foi Abraão (Gên 20:7), e a figura fundante do profetismo foi Moisés (Dt 18:15-22; cf sua irmã Maria, profetisa, Ex 15:20). Até onde sabemos pelos textos bíblicos, nenhum deles predizia coisas futuras. Nem os primeiros profetas (orais), como Samuel, Elias e Eliseu, se dedicaram a anunciar eventos futuros, mas nem por isso eram menos proféticos (Stam 1998: 26-50). Os profetas que nos deixaram escritos, tanto os chamados maiores como os menores, anunciavam realidades futuras somente quando tinham a ver com sua mensagem ao povo de Deus em seu próprio contexto, mas não se dedicavam principalmente a isso nem eram profestas por predizer nem deixavam de ser profetas quando não previam algo. Amós, por exemplo, não predisse coisas futuras, exceto aquelas tão próximas que podiam ser inferidas das realidades históricas e das condições do pacto, mas seu ministério era um exemplo do melhor profetismo, porque pronunciava uma palavra viva e exigente de Yahvé para seu povo.

 

Uma mensagem é profética, em sentido bíblico, por seu caráter teológico e ético, não por predizer o futuro. Quando em meio a sua revelações a seu povo Deus quis revelar também acontecimentos futuros, isso foi deve ser especificamente chamado de “profecia preditiva”. Mas nem toda profecia é preditiva. Muitos menos toda predição (mesmo quando se cumpre) é, por isso, “profética”. Preditiva ou não preditiva, a profecia tem que chamar o povo de Deus a cumprir a vontade de seu Senhor em meio à realidade histórica.

 

Um segundo termo-chave é escatologia, “a doutrina das últimas coisas” (Griego êschaton). A frase “coisas últimas” não tem que se referir exclusivamente aos acontecimentos finais em sentido cronológico, mas também às “últimas realidades” que entram na história a partir de cima, como, por exemplo, a encarnação do Verbo (a realidade última fazendo-se temporal e material) e outras intervenções divinas na história da salvação. Mas geralmente se entende por “escatologia” os ensinamentos bíblicos referentes à meta final do processo histórico (“o século futuro”, “o dia do Senhor”, a parousia do Filho do Homem). Como explicaremos abaixo, há diferenças importantes entre escatologia profética e escatologia apocalíptica.

 

Por outro lado, o termo “apocalipse” se refere especificamente ao gênero literário assim designado, ou seja, a um conjunto de escritos que compartilham certas características: em primeiro lugar (e em contraste com os escritos proféticos), a literatura apocalíptica em seu nível mais básico pertence à categoria da narração, tal como a história, a novela, o conto, a fábula e a saga. Dentro desse macro-gênero, a literatura apocalíptica apresenta características especiais. Como significa seu nome “apocalipse” (grego, “revelação”), essa literatura pretende ser uma revelação vinda de um ser sobrenatural a um ser humano, geralmente por meio de visões e sonhos. Costuma mover-se sobre um eixo vertical (céu/terra) e/ou um existo horizontal (este século/século futuro, históricas/êschaton). Utiliza extensamente o simbolismo e alude muito a anjos e demônios. Os escritos mais antigos deste gênero, algumas passagens de I Enoque, datam de, pelo menos, o século II antes de Cristo (a.C.), enquanto sua produção começa a diminuir a partir do segundo século  depois de Cristo (d.C.). Em alguns casos, os peritos apresentam desacordo sobre se determinados escritos pertencem estritamente ao gênero apocalíptico, mas a coleção é vasta, tendo talvez duas ou três vezes a extensão da Bíblia inteira. A coleção mais completa, de James H Charlesworth (em inglês), alcança umas duas mil páginas grandes. Portanto, é uma fonte rica e valiosa para entender esse movimento histórico como também o próprio Apocalipse de João.

A literatura apocalíptica foi escrita caracteristicamente em tempos de crise, iniciando com a tirania de Antíoco Epífanes (175-164 a.C), passando pela primeira revolta judia (66-70 d.C) e culminando com a segunda revolta, sob Bar Kocheba (132-135 d.C.). Em sua mensagem, os apocalípticos seguiam os profetas israelitas, mas com diferenças importantes. Ambos pretendiam dizer uma palavra de Deus para os tempos que viviam, e ambos criam no triunfo da justiça. Mas os profetas esperavam mudanças dentro da história e chamavam o povo ao arrependimento para torná-las possíveis. Diferentemente, os apocalípticos não tinham esperança nas possibilidades históricas e buscavam, antes, alguma futura intervenção divina na resolução das situações humanas impossíveis.

 

Recentemente, especialistas como John C. Collins e Paul D. Hanson têm esclarecido o tema, introduzindo várias distinções importantes: (1) Por “apocalipse” deve ser entendido o gênero literário dos escritos cujas características já descrevemos no parágrafo anterior. (2) Por outro lado, chamam “escatologia apocalíptica” a perspectiva teológica, o conjunto de ideias, que caracterizam os escritos apocalípticos mas sem necessariamente expressar-se no estilo dos escritos apocalípticos como gênero literário. Em terceiro lugar (3), definem o “apocalipticismo” como um movimento ou uma ideologia no sentido mais amplo. É um universo simbólico gerado em oposição à cultura dominante, que estabelece a identidade, a razão de ser e a esperança da comunidade (Hanson 1962:27). A comunidade de Qumran é um exemplo do apocalipticismo, mesmo que seus escritos não costumassem ser tipicamente apocalípticos em termos de seu gênero literário.

 

Em seu famoso artigo para o suplemento do Intepreter’s Bible Dictionary, Hanson sugere ainda outra categoria: o “pseudoapocalipticismo” (1962:33). Este consiste na paixão puramente especulativa pelo apocalíptico como sistema de ideias, sem a menor relação com a situação de crise que originou o apocalipticismo nem uma consciência clara e profética das crises conjunturais de seu próprio momento histórico. Não leva em consideração as lutas históricas dos antigos autores apocalípticos embora interpretem os escritos (especialmente Daniel e Apocalipses) a partir da comidade de sua própria prosperidade e segurança existencial. Um sintoma do pseudoapocalipticismo é que ele busca fomentar medo ao invés de inspirar esperança. Qualquer interpretação que, hoje, inculque apatia evasiva, irresponsabilidade histórica ou indiferenças diante da injustiça, ou mesmo que se preste a legitimar opressões, tem todas as marcas do pseudoapocalipticismo.

 

O gênero apocalíptico não foi nunca algo rigidamente formal; os autores não se davam necessariamente conta de estar empregando determinado tipo de escrita. Muitas vezes, um escrito apocalíptico vem acompanhado de outros gêneros. O Apocalipse de João, por exemplo, tem a estrutura clássica de uma epístola; começa com uma saudação (1:4, 9-11) e termina com uma despedida (22:7-21). Inclui também oráculos, bem-aventuranças, parábolas (provavelmente 11:3-13) e outros. Alguns sub-gêneros na literatura apocalíptica são o testamento (discurso de despedida), o mito, ditos sapienciais etc.

 

Características da literatura apocalíptica

 

O gênero apocalíptico tem uma série de características que o distinguem diante dos demais tipos de literatura bíblica e o fazem bastante fácil de reconhecer. Parece que durante a época de seu apogeu, mais ou menos entre 200 a.C. e 150 d.C., esse estilo literário era visto como a maneira mais acertada e eficaz de expressar a esperança e mantê-la viva no povo. Do oráculo poético dos profetas, que dependia da comunicação oral, os apocalípticos passaram a redigir livros, em prosa em sua maioria, com maior consciência de sua estrutura e estética.

 

Uma primeira característica desses escritos é a psedonomia. Os escritos apocalípticos, com exceção do Apocalipse de João e do Pastor de Hermas, sempre atribuíam suas mensagens a grandes santos e heróis do passado, sobretudo a Enoque, mas também a Adão, Noé, Abraão, Isaque, Jacó, os patriarcas, Moisés, Elias, Baruque e Esdras. Isso era um costume da época, comum no Oriente Antigo, e de forma alguma representava algum problema ético. Os judeus acreditavam que a partir da morde de Judas Macabeu (161 a.C.), os céus haviam se fechado e deixaram de aparecer profetas (1 Macabeos 9:27; 2 Baruc 85:3). Como não se esperavam novas profecias naquela época, os autores apocalípticos localizavam suas revelações nos tempos antigos, o que também dava certo ar de antiguidade e autoridade a seus escritos. Além disso, lhes permitia contar muitas histórias já ocorridas como se se tratassem de profecias futuras para o personagem a que atribuíam o escrito.

 

O que mais chama atenção nesses escritos é seu uso abundante e imaginativo de simbolismos, que devem ser interpretados em sentido figurado. Sua linguagem é quase sempre evocativa, sugestiva, conotativa. É clara sua intenção de falar simbolicamente, não literalmente. João de Patmos, por exemplo, não tem o menor cuidado em dar dois sentido totalmente diferentes ao mesmo símbolo; assim, as sete cabeças da besta são sete montes (Apoc 17:9) mas também sete reis (17:10). João não se preocupa quando produz simbolismos literalmente impossíveis, como a chuva de foto e granizo misturados com sangue (8:7), a mão com sete estrelas que, em seguida, põe-se sobre a cabeça de João (1:16-17), uma estrela que contamina a terceira parte dos rios e fontes do mundo (8:10), ou um altar que fala (9:13; 16:7 NVI, BJ).

 

Entre os simbolismos mais típicos da literatura apocalíptica estão as cores. Geralmente o branco significa vitória e, às vezes, o celestial; o vermelho ou escarlate o mal, o sangue, a guerra; o preto o escuro, a noite; o verde a morte etc. É importante não interpretar essas cores pelos valores simbólicos que têm hoje em dia. Por exemplo, o mal no Apocalipse não é preto mas escarlate (sem nenhuma relação com a cor da pele); o verde não significa esperança (como costuma entender-se hoje) mas morte (Apoc 6:8).

 

Também os números são simbólicos: três pra Deus; quatro pra natureza; seis pra o incompleto e, às vezes, o mal; sete pra o completo e perfeito, quase sempre bom (exceto em sua paródia pelo dragão e pela besta); dez também é completo; doze aponta o povo de Deus (12 patriarcas, 12 apóstolos). As frações têm um significado especial, como por exemplo os três anos e meio: não passa de meia semana! Uma multiplicação adiciona significado ao dígito: 144.000 é o quadrado de 12 ao cubo de 10. Quando as cifras são simbólicas, não devem ser traduzidas ao sistema métrico nem a outras medidas, o que lhes faria perder o significado simbólico. Os únicos números que no Apocalipse não levam valor simbólico são os preços do trigo e cavada em 6:6, onde têm sentido econômico de preços da cesta básica.

 

É especialmente comum e importante o simbolismo dos animais, que costumam representar nações e reis poderosos. Geralmente os autores apocalípticos descrevem os seres humanos como animais, aos anjos como seres humanos (1 Enoc 87:2), e aos demônios como estrelas caídas (1 En 86:13). Seu ponto de partida está em Daniel, onde quatro bestas surgidas do mar representam quatro impérios hostis. Esses animais lutam, oprimem, e desaparecem de cena. São representações que dão uma grande força dramática, algo parecido às caricaturas políticas de hoje (Rússia como urso, o dragão chinês, a águia dos Estados Unidos). Com muito humor, alguns escritos apocalípticos afirmam que a carne da grande besta será o menu do banquete messiânico (2 Esd 6:52; 2 Bar 29:4).

 

Um dos primeiros escritos apocalípticos, o “apocalipse dos animais” (I Enoc 85-90, ca. 163-130 a.C.), é uma exuberante orgia de alegorizações zoomórficas. Esse sonho, recebido por Enoc antes de se casar com sua esposa Edna, começa quando um touro branco (Adão) sai da terra, seguido por uma por una novilha (Eva) e dois bezerros, um preto e o outro vermelho (Caín y Abel; 1 En 85:3). Com uma novilha, esse bezerro preto gera muitos touros pretos (linhagem de Caín; 85:5). Do primeiro touro e sua novilha nasceu outro touro branco, que cresceu e se tornou um grande touro branco (Set), que gerou muitos touros brancos (85:8-10). Depois, muitas estrelas caídas (anjos) fecundaram as novilhas (Gén 6:1), que pariram elefantes, camelos e jumentos (86:4).

 

Nessa chave zoológica, segue descrevendo toda a história judaica até os macabeus. Noé nasceu um touro mas se tornou homem; seus três filhos eram touros, um branco, outro vermelho e outro preto. O vermelho e o preto geraram leões, cães, porcos e toda espécie de criaturas repugnantes, e todos se mordiam uns aos outros (89:1-11). Chegou um tempo em que um touro branco (Abraão) gerou um jumento selvagem (Ismael) e um touro branco (Isaac; 89:10-11). Este gerou um javali preto (Esaú) e uma ovelha branca (Jacó), que gerou doze cordeiros (89:12). E assim segue a história: Davi e Salomão são ovelhas, mas se converteram em carneiros ao ascender ao trono (89:45,48). Os judeus são cordeiros; os opressores são bestas selvagens e aves de rapina; os judeus apóstatas são cordeiros cegos (89:74; 90:7). Um carneiro, de quem brotou um enorme chifre (Judas Macabeo, 90:9), lutou contra os inimigos dos cordeiros (90:11-17). Ao fim, virá um touro branco (90:37, o Messias), com grandes chifres, que se converterão em cordeiro e será venerado por todos os animais (90:30,37), Finalmente, todos os animais se transformarão em touros brancos, como Adão no princípio (90:38).

 

A literatura apocalíptica costuma estar dedicada também aos fenômenos cósmicos. Muitos destes escritos mostram grande interesse na astronomia; “O livro do curso das luminárias do céu”, agora incorporado a 1 Enoc (72-82), é o exemplo mais antigo. Muito comumente, os juízos divinos são descritos como catástrofes naturais e cósmicas, de modo que quando João incorporou este simbolismo em seu livro (especialmente o do sexto selo, 6:12-17, e as seis primeiras trombetas, 8:6-9:20), isso era um simbolismo já conhecido por seus leitores. Antes que uma revelação totalmente nova, era uma releitura de anteriores tradições apocalípticas. De fato, já desde as escrituras hebraicas este  simbolismo estava muito presente na escatologia profética.

 

Generalmente se atribui à literatura apocalíptica um dualismo, embora seja importante esclarecer que é um dualismo ético (luta entre o bem e o mal) e não metafísico (crença em duas realidades últimas). Como eles buscavam encontra esperança ou no transcendental (acima; o céu) ou no escatológico (adiante, depois da intervenção divina final), estavam convencidos de que a realidade definitiva estava no céu e não na terra (cf. Apoc 4-5). Ao vidente foi permitido saber o que acontece no céu, e o celestial determina o terrestre e histórico. O que acontece acima em pouco tempo acontecerá aqui embaixo. Isso explica a grande ênfase nas viagens celestiais e no papel dos anjos. Na luta entre os poderes celestiais do bem e do mal, não existe campo neutro; ou estamos com Deus ou estamos com o diabo. Negar ao Senhor significa passar às fileiras do mal. Nossas opções nesta luta cósmica serão medidas finalmente por julgamentos divinos.

 

É importante destacar que muitas vezes os autores apocalípticos estavam tentando uma escatologia contextualizada, segundo entendiam suas próprias conjunturas históricas. A diferença entre o gênero profético e o gênero apocalíptico se devia precisamente às novas circunstâncias nacionais (helenização depois de Alexandre Magno; os macabeus, a ocupação romana). Já que escreviam sob o nome de algum personagem antigo, às vezes comentavam acontecimento contemporâneos como se fossem bíblicos. Por exemplo, o Testamento de Judá 3-7 descreve as guerras macabeias como uma batalha de Judá e Dan (sob o pseudônimo de “amoritas”), que lutam contra os “cananeus” (Charlesworth 996: 895). Diversos escritos interpretam a destruição de Jerusalém por Tito como se fosse a de Nabucodonosor (4 Esdras, 2 Baruc).

 

Muitos dos escritos apocalípticos, em que pese seu suposto dualismo, mostram uma viva consciência histórica. André Paul encontra nesses autores “uma autêntica ciência da história” (1979: 49,51). Em vez de ver a história sozinha como uma séria de acontecimentos isolados, sublinha Paul, a veem como uma totalidade. Costumeiramente oferecem resumos históricos, com periodização correspondente. Veem o sentido de todo o processo em sua meta final, que costuma ser uma ato divino que restaura toda a Criação (cf. o “ponto Ômega”, de Teilhard de Chardin). Costumeiramente é uma literatura de protesto, para tempos de desesperança. O Apocalipse de João, lido com boa análise histórica e socioeconômico, enfoca uma profunda teologia da história e nos oferece uma das análises mais profundas e críticas do império romano ao final do primeiro século (Stam 1978/1979).

 

Normalmente, ainda que não sempre, os autores apocalípticos expressavam sua mensagem também em exigências éticas, por vezes também de compromisso histórico. Insistiam na piedade, na santidade e na justiça, especialmente diante das perspectivas do julgamento divino. Em 1 Enoc 101-104 e 2 Enoc 39-66, por exemplo, Enoc volta do céu para instruir e exortar seus filhos a praticas o correto e o justo. No Testamento dos doze patriarcas, cada um dos filhos de Jacó insta seus próprios filhos a cumprir a lei de Deus e arrepender-se de seus maus caminhos (cf. 4 Esd 7:48-49).

 

George Ladd (1960: 52-54) e outros analisam duas tendências na literatura apocalíptica: (1) a apocalíptica não-profética, que pretende escapar da historia para refugiar-se no mundo futuro e (2) a apocalíptica profética, que convoca à fidelidade histórica à luz do futuro escatológico, e cujo representante mais brilhante é o último livro de nosso Novo Testamento. Por isso, é um grave erro usar o termo “apocalíptico” como sinônimo de catastrófico e trágico (um terremoto ou outro desastre). Longe de qualquer entrega ao desespero, o Apocalipse de João é uma chamado à tenacidade (hupomonê, 1:9) e à fidelidade até às últimas consequências, seguros de que Jesus Cristo é o Senhor.

 

Algumas chaves para melhor entender a literatura apocalíptica

 

Já insistimos no fato de que cada gênero literário deve ser lido e interpretado de acordo com suas próprias regras. Não entender isso, e desconhecer a literatura apocalíptica judaica e sua maneira de pensar, tem sido a maior causa de dificuldades e confusões na interpretação do Apocalipse de João. Mencionamos a seguir, muito brevemente, algumas das orientações e regras de interpretação que nos ensinam literatura apocalíptica para poder interpretar melhor o último livro de nossa Bíblia.

 

(1) É importante ter em conta que os escritos apocalípticos são literatura de imaginação. Não apelam em primeiro lugar ao raciocínio lógico mas ao dom da fantasia. Por isso temos que nos aproximar dela dispostos à imaginação, junto com seus autores, entrando em seu mundo simbólico, que costuma estar bem apartado do mundo “real” cotidiano e nos introduz em realidades mais profundas que aquelas possíveis a frias análises intelectuais.

 

Para a maioria dos adultos atuais, e dos cristãos em particular, os vastos continentes do mundo da imaginação costumam ser território desconhecido. Por isso ficamos bem mais cômodos diante de textos como Romanos ou Marcos, com os Salmos ou mesmo com Amós, que diante do Apocalipse. Nos ajudaria consideravelmente, como preparação para os escritos apocalípticos, nos dedicarmos a ler extensamente a literatura latino-americana, com seu realismo fantástico, e contemplar a arte de Guayasamín e Picasso, Salvador Dalí e Frida Kahlo, Jerónimo Bosch, William Blake e El Greco.

 

(2) A literatura apocalíptica, e especificamente o Apocalipse de João, apela diretamente aos sentidos de percepção física. Nos chama a escutar trombetas, trovões, harpas e corais; a ver quadros pintados por palavras (e toda uma galeria de pinturas); a cheirar incenso e enxofre e a saborear um rolo agridoce. Para ler Romanos ou Marcos, por outro lado, não se requer tanto a ativação dos sentidos de escuta, visão, olfato, paladar e tato. Mas se leio o Apocalipse sem esses sentidos, deixo escapar a maior parte de sua  mensagem. Por isso, mais que somente explicar esse libro, trata-se de vivê-lo, de experimentar pessoalmente suas emoções e seu drama. Essa deve ser a maneira primordial de interpretá-lo.

 

(3) Como a literatura apocalíptica costuma ser contextual, e frequentemente também uma literatura de protesto, é absolutamente indispensável interpretá-la em constante relação direta com seu contexto histórico original, e, a partir daí, com nosso contexto histórico atual. Todos conhecemos o refrão “o texto sem o contexto é um pretexto”, e, em geral, costuma aplicar-se o mesmo, mais ou menos bem, com outros livros, como Romanos ou Marcos. Mas precisamente ali aonde o contexto é muito mais crucial, no Apocalipse, se esquece o contexto histórico e se passa a sua interpretação como um livro de previsões no ar, descontextualizado tanto ontem como hoje, com sua única referência num futuro remoto e desconhecido. O resultado, como assinala Hanson, é o pseudoapocalipticismo.

 

(4) Na literatura apocalíptica, na maioria das vezes a mensagem central vem em visões e sonhos. Nos cabe ativas a imaginação e conseguir ver essa visão, assimilando seus diversos detalhes num só quadro coerente e integral. De modo que devemos buscar a mensagem no quadro total. As palavras do Apocalipse vão pintando quadros, e os quadros falam, como se fossem pinturas numa galeria. Se tratamos de converter cada detalhe em alguma realidade literal, antes de ver e sentir o quadro total, teremos desmembrado o quadro e emasculado sua força visual e dramática. Nas imagens simbólicas do Apocalipse, é perfeitamente possível que um só detalhe tenha dois significados diferentes (as sete cabeças são sete montes, e são sete reis, 17:9-10) e é igualmente possível que algum detalhes não tenha nenhum referente externo tratando de um simples detalhes pictórico do quadro.

 

(5) Por seu próprio gênero literário e pelos muitos séculos que já se passaram, os livros apocalípticos (inclusive o de João) incluem detalhes que agora não podemos decodificar, porque perdemos as chaves de interpretação. Isso não deve nos surpreender, já que se tratam de escritos com códigos muito mais sutis (algo assim como nossas caricaturas políticas ou como as piadas) que naquele então os leitores entendiam mas que hoje não são sempre plenamente explicáveis. Sem dúvida, o impressionante do Apocalipse de João é que, apesar desses detalhes (as espinhas de peixe), não há uma só passagem cujo sentido não esteja ao alcance do leitor moderno. Esses detalhes nos assustam e nos distraem, mas quase sempre podemos entender o parágrafo sem eles. Por isso temos que buscar a mensagem central de cada passagem, tratando de captar o que os autores diziam a suas comunidades nos finais do primeiro século. Devemos lembrar que João era um pastor e se preocupava em comunicar-se com as necessidades de seu povo. Não ia falar-lhes por enigmas obscuros que somente os confundiriam.

 

Uma vez que tenhamos encontrado o foco da mensagem central da passagem (não só o sentido de um só detalhe ou de um só versículo), devemos perguntar-nos sobre o sentido dessa mensagem para nossos dias atuais. Nisso também devemos atentar não tanto aos detalhes em separado mas à mensagem em seu conjunto, buscar o que nos diz hoje. A atualização contextualizada consiste em buscar a mensagem da mensagem, o que aquela mensagem antiga pode nos dizer hoje. Por exemplo, para interpretar Apocalipse 13, não devemos nos deixar perder em especulações sobre “666” mas buscarmos entender primeiro a mensagem de João, o que está dizendo às igrejas sobre o poder político (a primeira besta), religioso (o falso profeta) e econômico (bloqueio comercial, 13:17), e depois analisaremos nosso contexto hoje para ver onde aparecem estruturas de poder parecidas. Ao analisar as “sete colinas” de 17:9, veremos que é uma clara referência à cidade de Roma, por seu apelido mais conhecido, e entenderemos esse detalhe no contexto da mensagem global de João sobre o poder imperial. Assim, para atualizá-lo, não perguntaremos primeiramente quais cidades hoje estão sobre sete colinas (atualização de um detalhe), mas nos perguntaremos quais governos e sistemas reproduzem hoje os modelos da antiga Babilônia (Roma), o que nos dará “a mensagem da mensagem”.

 

(6) É importante recordar que as visões não são necessariamente literais. Sua forma narrativa e seus detalhes dramáticas facilmente dão a impressão de que as coisas vão acontecer exatamente como se descreve. Mas já vimos que a literatura apocalíptica utiliza essencialmente a linguagem simbólico. Enquanto outros gêneros priorizam a linguagem literal, neste gênero a primeira suspeita é que o texto seja simbólico, a menos que outras razão indiquem o contrário. No Apocalipse de João, muitas passagens devem ser entendidas simbolicamente ainda quando não tragam linguagem comparativa (“como”, “parecia”, etc). Em 19:11-15, João diz que apareceu um cavalo no céu e Cristo veio montado nele, sem nenhum termo comparativo, mas esse é obviamente um trecho simbólico (a segunda vinda não será a cavalo).

 

Dois obstáculos dificultam hoje nossa boa compreensão da linguagem simbólica do Apocalipse. Primeiro, nossa mentalidade moderna e ocidentalizada, que tende a ser muito literalista. Segundo, o grande respeito que temos pela Bíblia, que nos leva a crer em sua inspiração divina e, a partir daí, a assumirmos equivocadamente que somos mais piedosos ou expressamos maior fé quando tomamos as coisas ao pé da letra. Mas é o contrário! Respeitamos mais o texto quando o entendemos como é, e, portanto, como simbólico nas muitas vezes que seu sentido original é, de fato, simbólico. (Jesus Cristo é o Cordeiro de Deus, mas não tem quatro patas, chifres e lã). Isso não é negar o sentido do texto mas se fiel a ele. Passagens como 17:9-10 e 19:11-15 mostram que João mesmo estava plenamente consciente de estar falando em linguagem simbólica.

 

Há, inclusive, muitos ensinos no Apocalipse que não são simbólicos e não devem ser alegorizados. Se trata de determinar fielmente o sentido e a mensagem de cada passagem. Mas devemos liberar-nos do preconceito equivocado, e de fato anti-bíblico, de que a interpretação literal merece alguma preferência a priori ou que revela maior piedade o mais fé. De fato, grupos como os mórmons e as testemunhas de Jeová são muito mais literalistas que os fundamentalista mais recalcitrantes entre nós. A meta na interpretação bíblica, e do Apocalipse, é ser fiel à mensagem revelada, seja de sentido literal seja de sentido simbólico.

 

(7) Pode surpreender alguns dar-se conta que também as visões não são necessariamente preditivas. Nos relatos de visões, os verbos costumam aparecer em tempo passado, não no futuro, justamente porque se referem ao momento em que o autor apocalíptico recebeu a visão. Geralmente, há pouco ou nada no relato que indique estar anunciando algo que vá acontecer no futuro. Muitas visões no Apocalipse simplesmente descrevem  verdades espirituais, sem pretender predizer sucessos futuros. A visão do filho do homem (Apoc 1), do trono e o Cordeiro (Apoc 4-5) e da meia hora de silêncio (8:1-4), não devem ser entendidas como predições de acontecimentos futuros. Se o leitor optar pela interpretação das visões de trombetas e de taças como predições de futuros sucessos específicos, essa é uma decisão do intérprete… a não ser que ele demonstre no próprio texto que aquelas visões tiveram uma intenção preditiva ao serem escritas.

 

Um exemplo dramático desse fato é a disseminada interpretação do 666″ do Apocalipse 13: 16-18. Quase todo mundo crê que o número anuncia uma ação futura da besta (que identificam com o Anticristo) ao final da história. Em todo caso, é certo que João identifica, claramente, a besta e o império romano de sua própria época (17:9-11), e em 13:16 os verbos são passados (“pôs em todos uma marca”) sem nada que indique que se refira, necessariamente, a uma ação futura. É mais coerente, portanto, entender esse número como uma descrição, em forma de visão, do poder econômico do falso profeta (provavelmente o Sumo Sacerdote do imperador em seu templo em Éfeso) ou simplesmente que seja uma descrição geral da estrangulação econômica de sistemas imperialistas. Isso estaria em maior acordo com o gênero literário apocalíptico e com os dados da própria passagem, e seria uma mensagem pastoral e prática para as comunidades.

 

Contribuições da literatura apocalíptica

 

Três exemplos: há evidências convincentes de que os autores bíblicos conheciam a literatura apocalíptica. Muitos dos termos e ideias do Novo Testamento encontram esclarecimento diante de seus antecedentes no mundo dos autores intertestamentais: filho do homem, Messias, reino de Deus, o homem da maldade, o Anticristo, a ressurreição, o juízo final, nova criação e nova Jerusalém. Judas alude expressamente a 1 Enoc en v.6 (cf. 1 En 6:1-12; 10:4-6,12) e v.14 (1 En 1:9), e em seu  v.9 alude, aparentemente, a um texto perdido da Assunção de Moisés. Em 2 Pedro aparecem muitos dos mesmos temas e argumentos de Judas, mas sem referências diretas à literatura extracanônica.

 

Para ser mais específicos, vejamos três casos do Apocalipse em que a literatura apocalíptica esclarece o sentido da passagem:

 

(1) Apocalipse 2:17 promete “o maná escondido”, frase que no se pode esclarecer adequadamente a partir do Antigo Testamento. Mas uma tradição judaica afirmava que que quando o templo foi destruído por Nabucodonosor, Jeremias (2 Mac 2:4-6; ou um anjo 2 Bar 6:5-10) escondeu o maná da arca numa cova, onde Deus o estava conservando até que chegassem os dias do Messias. Oráculo Sibilino (7:149) promete que quando vier o Messias, os fiéis “comerão com dentes brancos o maná coberto de orvalho” (cf. OrSib 3:622-3, 5:283-285 y 8:203-205). Um escrito contemporâneo do Apocalipse o descreve com mais detalhes:

A terra dará seu fruto dez mil vezes mais, sobre cada videira haverá mil ramas e cada rama produzirá mil cachos, e cada cacho mil uvas, e cada uva um coral de vinho [220 litros]. E os que haviam passado fome se regozijaram, e verão maravilhas todos os dias. Ventos sairão diante de mim e levarão cada manhã flagrância de frutas aromáticas, e ao final do dia nuvens destilarão o orvalho da saúde. E acontecerá que nesse mesmo tempo os tesouros do maná voltarão a descer do alto, e comerão dele nesses anos, porque são os que têm chegado à consumação do tempo (2 Baruc 29:3-8).

É muito provável que João aluda a este veio da tradição apocalíptica em sua frase “o maná escondido”.

 

(2) Talvez o maior quebra-cabeças do Apocalipse seja o misterioso “666” de 13:18. Nada no Antigo Testamento nos ajuda a entender este número simbólico, mas podemos encontrar uma chave interpretativa valiosa na literatura apocalíptica. Estes autores antigos utilizavam muito um método hermenêutico chamado gematria (ou “guemátria”), que se baseava na soma dos valores numéricos das letras de determinado nome. Os hebreus e os gregos não tinham números (dígitos), como os que herdamos dos árabes, daí que utilizassem as letras do alfabeto como números. Daí que lhes interessasse fazer a soma matemática das letras de um nome, quase ao estilo de um apelido. Para dar um exemplo bem simples, o nome “Aba” somaria quatro (1+2+1) ou na forma “Abba” seis (1+2+2+1). Numa parede entre as ruínas de Pompéia, aparece uma romântica mensagem que diz “amo a aquela cujo número é 545” (Coenen 1983 tomo 3:183).

 

É muito interessante encontrar num escrito contemporâneo, como o de João de Patmos, Oráculos Sibilinos 5, que resume a “infeliz história da raça latina” desde os tempos de Alexandre Magno até o imperador Adriano, mesmo nomeando a nenhum dos imperadores, que são identificados pelos valores numéricos da letra inicial de seus nomes:

 

5:12 – o primeiro dos caudilhos, a soma de cuja letra inicial será de duas vezes dez (César),
5:14 – e terá sua primeira letra correspondente à dezena (Júlio);
5:15 – depois dele, governará aquele a quem corresponde a primeira das letras (Augusto);
5:21 – [o seguinte] terá a inicial do número trezentos (Tibério)…
5:28 – O que tem por inicial o número cinquenta [Nero] será soberano, terrível serpente…
5:40 – Um homem de cabelo cinza com a inicial quatro [Domiciano], etc., até Adriano.

 

Uma passagem de Oráculos Sibilinos 1, de clara origem cristã, utiliza a gematria para designar Cristo como o número 888:

Então o filho de Deus poderoso chegará até os homens, feito carne… Tem quatro vogais e nele se repete a consonante. Eu te darei os detalhes da cifra total: oito unidades, outras tantas dezenas sobre elas, e oito centenas, que aos homens incrédulos revelarão seu nome… (1:323-330)

Os detalhes e a soma correspondem ao nome Iêsous (10+8+200+70+400+200). Este parecer ser o paralelo mais próximo a Apocalipse 13:18, tanto pelo tipo de gematria como também pelo contraste entre Cristo e a besta. Cristo é mais que perfeito (777 mais 111); a besta pretende ser perfeita mas se resume a um triste 666.

 

Ainda que este contexto não chegue a dar precisão à identidade daquele cujas letras somam 666 (ou a variante textual 616), dá fortes razões para que se suponha que 13:18 é um caso de gematria. Com as devidas reservas, a maioria dos intérpretes veem uma referência a “César Nero” nas letras hebraicas (QSR NRWN: 100+60+200 +50+200+6+50; cf. Coenen 1983 tomo 3:184).

 

(3) Outra passagem muito debatida tem sido a do reino milenar (Apoc 20: 1-6). A passagem é muito obscura e controversa, e de resto as evidências bíblicas também não contribuem muito para seu entendimento. Mas encontramos numerosas passagens parecidas na literatura apocalíptica e rabínica, que distinguem entre um reinado messiânico, de duração limitada, e o reino final de Deus (cf. Díez Macho 1984 tomo 1:376-388). Esse reino messiânico se entende como intra-histórico (dentro do tempo da história humana) e sobre esta terra. Este veio interpretativo da tradição oferece três paralelos com o Apocalipse 20: (1) Satanás é preso por um tempo determinado; (2) há um reino penúltimo e interino de paz e justiça (usualmente, messiânico), também por um tempo limitado e (3), ao final, Satanás (o Beliar, etc.) será solto para um ataque final, no qual será derrotado e destruído. Todos esses elementos abundam na literatura judaica.

 

Passagens apocalípticas muito antigas descrevem um reino de perfeita paz e justiça na terra, dentro do tempo e história, prévio ao reino eterno de Deus (Jubileos 23:16-30; 1 Enoc 91:1-14; 93:12-17; 96:8; Salmos de Salomón 17:26-46; 18:1-12). En 2 Enoc, contemporâneo de João de Patmos (ca. 70 d.C.), o autor projeta os sete dias da criação em sete épocas da história, de mil anos cada uma. No sétimo período de mil anos Deus bendiz toda sua criação (32:2), e o oitavo (a eternidade) será de descanso e retorno à criação (“para que o oitavo dia seja o primeiro… para que o dia de domingo possa repetir-se indefinidamente” 33:1). Parece que o sétimo dia significa um penúltimo sábado, que duraria mil anos, antes da eternidade (oitavo dia).

 

Da mesma época, aproximadamente, a terceira visão de 4 Esdras (ca. 90 d.C.) sugere claramente um reino messiânico, na terra, de duração limitada e prévio à eternidade. O texto deixa claro que durará especificamente 400 anos: “Meu filho, o Messias, será revelado com os que o acompanham, e os que ficarem se regozijarão por 400 anos” (7: 28; cf Gén 15: 13). Ao final desse período, o Messias morrerá, junto com todos os viventes, e por sete dias o mundo voltará a seu silêncio original. Depois virão a ressurreição e o julgamento final, que durará sete anos (7:43). O escrito não parece conhecer outras funções do Messias. As diferenças com o Apocalipse são muito grande importantes, mas o texto apocalíptico é outro testemunho da existência de tradições sobre um penúltimo reinado messiânico.

 

Díez Macho chama 2 Baruc (90-100 d.C.) de “o livro que melhor reflete a dupla concepção: reino messiânico neste mundo e reino de Deus no mundo futuro do além”, separados pela ressurreição geral (1984 tomo 1:379). O autor descreve o reino messiânico preliminar como “o tempo de meu Ungido” (72:2; 30:1; cf 29:3), quando “a felicidade será revelada y o descanso aparecerá, e a saúde descerá como orvalho, e a enfermidade desaparecerá, e o medo e a tribulação desaparecerão entre os homens, e a alegria envolverá a terra. E ninguém morrerá prematuramente” (73:2). A bela passagem citada acima (2 Bar 29:4) descreve também as bençãos deste período.

 

Todos estes documentos apresentam um reino messiânico, nesta terra, com princípio e fim, seguido pelo reino eterno de Deus. Em 2 Enoc se fala em mil anos, como em Apocalipse; em 4 Esdras são 400 anos. Nos escritos rabínicos, posteriores ao Novo Testamento mas, sem dúvida, com raízes nas tradições dessa época, proliferam os comentários sobre esse reino messiânico, ao que quase sempre lhe atribui um período definido de duração. Com interpretações alegóricas das escrituras hebraicas, os rabinos oferecem a mais exuberante variedade de cálculos do tempo desse reinado: 40 anos, 60 anos, 70, 90, 100, 354 anos, 365, 400, 600, 1000, 2000, 2460, 4000, 6000, 7000, e até 365.000 anos (Strack Billerbeck 1926 tomo 3:824; Ford 1992:832).

 

Se somente uma parte dessas interpretações circulavam nos tempos de João, nosso profesta tinha muita tradição em que basear sua própria versão e muitos cálculos entre os quais poderia escolher. Dessa incrível multiplicidade de cálculos, como evidências a seu respeito, podemos concluir que estas expectativas de um reino messiânico (um “milênio”, seja qual fosse sua duração) estavam bem disseminadas, mas também que os cálculos de sua duração (como os “mil anos” do Apocalipse 20) não se entendiam literalmente.

 

Fontes apocalípticas descreviam também a prisão de Satanás (Beliar, Semihazeh, etc), por um período limitado, às vezes como preparação para o reino messiânico (cf. Apoc 20:1-3). Em 1 Enoc 10:4-8 Azazel é encarcerado pelas mãos e pés, lançado num caverna no deserto, e Deus manda tapá-la com pedras ásperas e agudas (10:5; cf. 13:1), até o dia do julgamento, quando será lançado ao fogo (10:6). Deus ordena que Miguel prenda o anjo caído Semyaza sob as colinas por setenta gerações, até o julgamento final, quando será enviado ao abismo de fogo (10:12; cf. 18:16). Os astros que caíram estavam presos por dez milhões de anos (21:6; cf. 18:16; 90:23). Também segundo Testamento de Leví, o Messias (“um novo sacerdote”, 18:4) prenderá a Beliar (18:12) e haverá paz e alegria na terra (18:4,13-14). Não haverá mais pecado (18:9) e o Messias abrirá as portas do paraíso para os fiéis (18:10-11).

 

É evidente que havia muita tradição judaica por trás do Apocalipse 20:1-10, que algo dessa tradição era conhecido por João, e ainda que ele o tenha escrito para ajudar os cristão da Ásia Menor a entender essa tradição, que lhes era culturalmente estranha. Parece que uns dos propósitos de João era dar aos fiéis uma releitura das diferentes correntes de pensamento apocalíptico que então circulavam. Neste caso, poderia não ter levado em consideração as tradições de um reinado messiânico preliminar, ou poderia simplesmente  tê-las rejeitado e refutado. Parece, porém, que optou por fazer melhor, reinterpretando-as cristologicamente.

 

Conclusão

 

Os estudiosos da Bíblia temos recebido três benção muito especiais no último século e meio. Uma foi o descobrimento, desde finais do século XIX, de milhares de papiros,  em sua maioria nas cálidas areias do Egito. Eles ajudaram imensamente a que a crítica textual do Novo Testamento pudesse acessar um texto grego muito mais fiel e contribuíram com muita informação útil à interpretação bíblica. A segunda benção, já muito famosa, consistiu nos valiosos documentos da comunidade de Qumran. Hoje em dia, seria uma irresponsabilidade pecaminosa pretender interpretar a Bíblia de costas a todos esses novos conhecimento, que iluminam e esclarecem o texto inspirado.

 

Mas, para entender os textos apocalípticos d Bíblia, uma terceira riqueza é igualmente significativa e útil. Neste mesmo século e meio têm sido descobertos, reconstruídos textualmente, publicados e interpretados vários dos escritos apocalípticos, muitos dos quais eram parte do mundo de João de Patmos e de sua mentalidade. Nosso livro de Apocalipse pertence a esse gênero literário e segue suas regras de interpretação. Se queremos entender o último livro de nossa Bíblia, convém considerar seriamente essa vasta biblioteca, com seu mundo mágico de imagens, e aprender a interpretar o libro de Apocalipse conforme seu gênero literário. Isso é parte de nossa fidelidade à palavra inspirada de nosso Deus.

 

Bibliografia

 

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Díez Macho, Alejandro, Apócrifos del Antiguo Testamento (5 tomos), tomo I: Introducción General (Madrid: Cristiandad, 1984)

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Stam, Juan, “El Apocalipsis y el Imperialismo” en Capitalismo: Violencia y Anti-Vida (San José, DEI: 1978) Vol.1, pp.359-394, y en Lectura Teológica del Tiempo Latinoamericano (San José, Sebila: 1979), pp.27-60.

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Strack, Hermann y Paul Billerbeck, Kommentar zum Neuen Testament Tomo III (Munich: C.H. Beck’sche, 1926).

 

Juan Stam, 02/03/2007.

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