PARA UMA CRISTOLOGIA DA SOLIDARIEDADE – Juan Stam (tradução)

PARA UMA CRISTOLOGIA DA SOLIDARIEDADE – Juan Stam (tradução) – http://juanstam.com/dnn/Blogs/tabid/110/EntryID/114/Default.aspx

 

(Estudos Bíblicos no Encontro de Famílias Confessionais – Matanzas, Cuba; 13-15 de julio de 2005 / Resumo; esboço provisório)

 

Introdução

 

Na teologia sistemática, se costumar incluir no capítulo dedicado à Soteriologia (doutrina da salvação), majoritariamente, o tema de “nossa identificação com Cristo”, além de uns com os outros como Corpo de Cristo. Escritores devocionais a descrevem como nossa “união mística” com Deus em Cristo. Nesta conversa, quero interpretar essa “identificação” e “união” com um termo mais contemporâneo, “solidariedade”. O estudaremos em torno de três momentos principais da Cristologia: a encarnação, crucificação e ressurreição do Filho de Deus.

Por um lado, vou afirmar que a pessoa e a obra salvífica de Jesus Cristo tem importantes implicações para nossa vida e compromisso hoje. Quando se entende os grandes momentos cristológicos como solidariedade, os mesmos se convertem em exigências de solidariedade para nós na América Latina de hoje.

Por outro lado, tratarei de demonstrar que esses três momentos são melhor entendidos a partir da perspectiva da solidariedade. De fato, a cruz não se entende, ou se entende  mal, sem este enfoque decisivo. A encarnação e a ressurreição também (assim como o Pentecostes) encontram seu sentido mais profundo quando são interpretados como atos de solidariedade.

Em outras palavras, a Cristologia nos ajuda a entender a solidariedade e a solidariedade nos ajuda, e muito, a entender a Cristologia.

 

1. A Encarnação como motivo e modelo de solidariedade (Jn 1:14)

 

O prólogo do quarto evangelho se move sobre três eixos: “o Verbo era Deus” (1:1), “o Verbo foi feito carne” (1:14), e “o Filho unigênito… nos deu a conhecer” (1:18). A passagem sugere a encarnação do Verbo como a máxima revelação de Deus; conhecemos o Deus invisível numa vida de carne e osso. Nas palavras de Heb 1:1-2, Deus terminou seu processo de auto-revelação quando “nos falou em seu filho” (elalêsen hêmin en huiô).

João 1:14 é um texto muito denso, em que cada palavra concentra uma grande riqueza de significado. A frase medular diz, “E o Verbo foi feito carne” (kai ho logos sarx egeneto).  O primeiro a chamar atenção é a paradoxal justaposição do sujeito logos (quem é Deus de acordo com 1:1-4) e o verbo egeneto, que implica “devir”, “fazer-se”, quando supostamente Deus deve ser imutável (de acordo com as categorias da filosofia grega e da teologia sistemática). Neste ato de encarnação começa a solidariedade de Jesus Cristo conosco. Do mundo eterno do “ser puro” (como concebido pelos teólogos), ao qual corresponderia o verbo eimi mas não o ginomai, o Verbo entrou nas dialéticas do processo histórico. Talvez possamos mesmo dizer que em sua encarnação o Verbo “se fez contradição consigo mesmo”, para imiscuir-se em nosso mundo do “devir”. Muda sua eternidade supostamente estática por nosso mundo dinâmico de mudanças constantes. Filosoficamente, diríamos que ele optou por Heráclito contra Parmênides.

A encarnação do Verbo eterno foi o ato de solidariedade por excelência, fundamento de toda a Cristologia e chave para seu entendimento. Ao tomar nossa “carne” (fragilidade humana, ser-carente-de, ser-para-a-morte), Cristo se identificou incondicionalmente com nossa condição humana em toda sua vulnerabilidade. Também se identificou com nossa condição de criaturas e com a criação mesma. Aquele por quem todas as coisas foram feitas (1:2-3, egeneto), pois o mundo foi feito por ele (1:10 egeneto), também “foi feito” (1.14 egeneto), ele mesmo, criação e “criatura” (feto e bebê nos processos normais de crescimento; Lc 2:40,52; cf. 1:0).

Nessa vida humana – tão humana como a nossa, mas sem pecado e por isso ainda mais humana – o Verbo-feito-carne nos deu a máxima revelação de Deus (Jn 1:18; cf. Heb 1:1-2). O Verbo não somente assumiu nossa carne mas também “habitou entre nós” (1:14), “fez morada na terra” e viveu na mais dolorosa e perigosa proximidade conosco e com nosso pecado. E dessa maneira “visibilizou” a Deus (“e vimos”) diante de nossos olhos. Um Verbo é invisível, como o é o próprio Deus (1:18), mas em sua radical identificação conosco Jesus tornou visível o Invisível. Nisso, deu exemplo do valor de uma vida encarnada em solidariedade.

Há vários outros textos que apontam essas “mutações” do Verbo divino. Cristo, “sendo por natureza Deus,… se rebaixou voluntariamente, tomando a natureza de servo (doulos), fazendo-se semelhante aos seres humanos…” (Fil 2:6-8: identificou-se com a humanidade e com todos os humilhados da terra); “sendo rico, se fez pobre (II Cor 8:9: identificou-se, em sua encarnação e seu estilo de vida, com a classe pobre); “Deus o fez pecado por nós” (II Cor 5:21, huper hêmôn hamartian epoiêsen; identificous-se ainda com nosso pecado e sua consequência, a morte).

Pela Virgem Maria o Verbo se uniu plena e incondicionalmente com nossa humanidade, e pelo Espírito Santo nós somos incorporados num só corpo nessa humanidade solidária do Encarnado. Nossa incorporação em Cristo pela fé cria toda uma nova realidade de solidariedade. Por isso São Paulo tem tanta predileção pela frase en Cristô e pelos vertos com sun (“com”) com prefixo, às vezes criados por ele mesmo. Fomos co-crucificados com Cristo (Gal 2:20), co-sepultados (Rom 6:4,5; Col 2:12), co-ressuscitados e co-sentados com ele em lugares celestiais (Col 2:13; 3:1; Ef 2:6) e co-viveremos com ele (Rom 6:8). Somos co-herdeiros com ele, e se co-sofremos com ele, também co-reinaremos com ele (Rom 8:17; Fil 3.10; Apoc 20:4). Tudo isso fala da solidariedade que ele criou conosco, e nossa com ele.

Por outro lado, como consequência de sua encarnação e solidariedade, Cristo fez de seu povo um só corpo, que pratica entre si a mesma solidariedade com que ele se identificou conosco. Aqui também abundam os verbos com o prefixo sun. Entre muitos, temos: en Cristo estamos co-articulados num só corpo (Ef 2:21; 4:16). Como tal combatemos (Fil 1:27) e co-lutamos em oração (Rom 15:30, sunagonizô); co-atuamos (1 Cor 16:16) e nos co-ajudamos (2 Cor 1:11). Estamos unidos para co-morrer e co-viver (2 Cor 7:3) e co-reinaremos juntamente (1 Cor 4:8). Nessa solidariedade do corpo de Cristo, quando um membro sofre, todos os membros sentem doer e, quando um membro recebe honra, todos se enchem de alegria (I Cor 12:26). Nessa solidariedade não cabem rivalidades.

Não poderíamos encontrar expressões mais enfáticas da solidariedade. E tudo procede da solidária encarnação do Verbo.

2. A solidariedade como o sentido mais profundo da Cruz (2 Cor 5:21; Gal 3:13) [1]

Com razão, Paulo disse que a cruz é uma loucura e um escândalo (1 Cor 1:18-23); se sua “irracionalidade” não nos escandaliza, nem começamos a entender seu significado. A tradicional teoria da “substituição” (eu devo dinheiro no armazém mas um amigo pega minha dívida em meu lugar; estou preso sob sentença de morte, mas um amigo me visita na sela, mudamos de roupa, eu saio livre e ele morro em meu lugar) é uma simplificação que trai os dados bíblicos, e faz da morte de Jesus uma enorme injustiça (Camus, Bernard Shaw, Domenic Crossan). A morte de Cristo não pode ser entendida como uma transção cambial, uma espécie de troca.

Sem pretender “explicar” a cruz, dois pontos importantes podem, pelo menos, começar a esclarecer seu sentido. Primeiro, nunca devemos esquecer que, no plano humano e histórico, a morte de Jesus na cruz não foi um mero episódio desconectado de toda sua vida, mas consequência inevitável de sua maneira de viver. Polemizava ousadamente com os líderes e toda a “gente de bem”, e defendia aos que eram “gente má” diante dos olhos da sociedade. Começou a semana final de sua vida com uma caminhada pública, seguida por um violento ato de protesto no templo… Sua maneira de ser e sua conduta eram insuportáveis para as autoridade. Assim entendido, o mataram por ser um subversivo.

A segunda pista, que ajuda ainda mais, nos aponta João Calvino, seguindo outros. Calvino faz introdução ao terceiro livro de sua Instituição da religião cristã tratando precisamente da salvação, com um parágrafo importante:

 

Antes de tudo, deve-se notar que enquanto Cristo está longe de nós e permanecemos afastados dele, tudo que ele sofre e fez pela redenção da linhagem humana não nos serve de nada, não nos beneficia nem um pouco. Portanto, para que possa comunicar-nos os bens que recebeu do Pai, é preciso que Ele se faça nosso e habite entre nós. Por essa razão á chamado “nossa Cabeça” e “primogênito entre muitos irmãos”; e em relação a nós se afirma sermos “enxertados nEle” (Rom 8.29; 11. 17; Gál 3.27); porque, segundo disse, nenhuma de nossas posses nos pertencem nem nada temos a ver com elas enquanto não somos feitos uma só coisa com Ele (Calvino Inst 3.1).

Interessantemente, foi somente na última edição de sua magnum opus que Calvino introduziu essa forte ênfase sobre a identificação solidária de Cristo conosco como chave de sua obra redentora [2]. Parece que foi fascinado tanto pelo tema que criou uma rica série de expressões latinas a seu respeito (“nostrae cum Deo coniunctionis” 3.6.2; “cum ipse in unum coalescimos” 3.1.1; “in Christi participatione” 3.16.1; Cristo “se nobis agglutinavit societatem” 3.2.24 etc.). Para Calvino, o Cristo que nos justifica e redime não é um “Christus extra nos” mas nos redime “na mais íntima fusão” conosco (3.11.10), num “sagrado matrimônio” (3.1.3 “sacrum coniugium“) entre ele e nós. Não devemos considerar a Cristo “como separado de nós” (procul stantem) mas “habitando em nós” (3.2.24). Pela “habitatio Christi in cordibus nostris” (3.11.10), compartimos “vita in consortio” (3.8.1; cf. 3.6.5). Essa relação é uma espécie de amálgama aglutinada, na qual o Espírito Santo é “vinculum” (3.1.1). “Incorporados a seu corpo, nos faz partícipes, não somente de seus bens, mas também de si mesmo” (3.2.24).

Tudo isso pode ser entendido como o que hoje chamamos “solidariedade”. Cristo se fez carne unha conosco, e nos fez carne e unha com ele. Pode se ver como uma espécie de “trasplante total”. Cristo tomou nosso pecado porque nos tomou a nós dentro de si e entrou ele dentro de nós, num mesmo corpo solidário. Ele foi mais que um “representante”, e muito mais que um “substituto”. Sua solidariedade chegou a tal grau de identificação, que seria mais fácil para dois gêmeos siameses separarem-se que para ele separar-se de nós [3].

Jesus Cristo manifestou e praticou essa solidariedade em seu nascimento, em seu estilho de vida e em sua morte.

Quando o Verbo foi feito carne, identificando-se com toda nossa fragilidade, passou também, como todos nós, seus nove meses como feto pré-natal. Ainda mais: foi concebido no ventre de uma mãe solteira, o que certamente não deve ter parecido aos vizinhos e vizinhas ser um milagre mas um escândalo… Por isso, seus inimigos jogariam posteriormente em sua cara: “nós não nascemos de fornicação” (Jn 8:41), e alguns rabinos o chamavam de “o bastardo de Nazaré”. Ao oitavo dia Jesus foi circuncidado (sem dúvida, sangrou como qualquer criança) e depois seus pais ofereceram dois pombos para sua purificação e de sua mãe (Lc 2:21-23; o pai não tinha culpa no assunto e não necessitava de purificação). Como jovem, Jesus teve certos atritos com seus pais (Lc 2:48-49) e trabalhou uns dezoito anos como carpinteiro, como mais um da classe trabalhadora. Ao iniciar seu ministério, se submeteu ao humilhante “batismo de arrependimento” de João o Batista, “para cumprir toda justiça”. Ainda que ele não tivesse pecados de que se arrepender, nisso também se identificou conosco, os pecadores, para nossa redenção (“toda justiça”).

Em sua conduta e estilo de vida Jesus também se identificava com os pecadores; os fariseus o condenavam por ser amigo de pecadores (Lc 15:1-2; 5:29-32; 7:33-39). Estendeu sua mão para tocar os enfermos, os leprosos e os mortos, o que o contaminava cerimonialmente e o incapacitava para entrar no templo. Era amigo da “gente má”, o que o fazia mal visto pela “gente de bem”. Foi terno e compassivo com os pecadores, mas muito severo com os hipócritas; agressivo e insultante; chegou a afirmar que os publicanos e as prostitutas entrariam no reino de Deus antes que os fariseus (Mt 21:31). Em tudo isso, diante dos sacerdotes e mestres da lei, foi “feito pecado” por via de sua solidariedade inseparável com pecadores.

Esse tipo de solidariedade com os marginais e desvalidos da sociedade nunca é bem vista pelos poderosos. Não é surpresa que muito cedo começaram a confabular para matá-lo. Além de se deixar chamar de “Rei dos judeus”, defendia sempre as vítimas do sistema. Entrou na cidade capital numa marcha triunfal e transtornou o sujo comércio dos poderosos na própria casa de Yahvé, denunciando-os por converter o templo num covil de ladrões. Toda essa solidariedade profética o levou à morte. A cruz foi instrumento de execução pública dos inimigos do sistema. Foi o preço de sua solidariedade conosco, em ousado serviço ao Reino de Deus e sua justiça.

 

Finalmente, sua mesma morte foi a expressão definitiva dessa solidariedade que começou com seu nascimento. Ao assumir a condição humana, o fez incondicionalmente, sem reservas em sua solidariedade (“Aceito nascer e viver em carne, mas não morrer, porque sou Deus e Deus não morre, muito menos posso fazer-me pecado e maldição” Como é possível isso pra Deus?). Aí podemos ver a loucura e o escândalo da cruz.

Mas em Cristo, a cruz tem também sua lógica, e é a lógica da solidariedade incondicional. Humanamente falando, essa morte violenta foi a consequência lógica e inevitável de uma vida que os poderoso jamais iriam tolerar. Mas evangelicamente falando, Cristo fez fez seus nossos pecados para fazer nossa sua justiça; fez sua nossa morte para libertar-nos dela. Criso foi desamparado por seu próprio Pai (novamente, imcompreensível para o entendimento humano; “Deus desamparado por Deus! Como pode ser?”, exclamou Lutero. “Não posso entender”). Mas ele foi desamparado por seu Pai para que nós nunca o sejamos. E nessa morte solidária, “Deus mostrou sua justiça, para que ele [Deus] seja justo e aquele que justifica o injusto”, com quem demonstrou solidariedade (cf. Rom 3:25-26).

 

“Oh Cristo”, disse Lutero, “Eu sou teu pecado, e tu és minha justiça” (2 Cor 5:21). E isso é assim não por alguma transação cambial e abstrata, mas por sua solidariedade até às últimas consequências. “Foi obediente até a morte, e morte de cruz” (Fil 2:8). Tendo nos amado, nos amou até o fim (Jn 13:1).

 

3. A Ressurreição como reafirmação da solidariedade (Lucas 24:13-49)

 

Na teologia da ressurreição voltamos a encontra a inadequação de uma explicação meramente forense, externa e transacional, ou a clássica teoria da “satisfação” (teoria “comercial” de Anselmo). Se Cristo já havia expiado toda a culpa do pecado e já havia pagado plenamente todo o preço de nossa redenção, que papel tem a ressurreição nesse plano salvífico? Por que não ascendeu Jesus diretamente à destra de Deus, em vez de passar quarenta dias mais na terra (segundo narra Lucas)? E, ainda mais, se Cristo já nos redimiu plenamente, para que nossa ressurreição corporal ao invés de um translado espiritual da alma ao céu?

 

Uma parte importante da resposta a essas perguntas se encontra precisamente na solidariedade de Jesus Cristo com nossa humanidade.

 

Em primeiro lugar, a ressurreição foi uma nova afirmação da carne, do valor de nossa condição física e seu lugar decisivo no plano salvífico de Deus para nós. Em certo sentido, sem negar a continuidade do Ressuscitado com o Crucificado e a identidade de ambos na pessoa de Jesus, a ressurreição pode ser considerada como uma espécie de “segunda encarnação”.

 

Redimindo-nos por sua morte na cruz, Jesus opta, digamos, por tomar de novo nossa carne e solidarizar-se com nossa corporalidade, mesmo que agora liberada e glorificada. Por isso Lucas insiste em que Jesus comia, caminhava e conversava. Por isso também o credo apostólico fala, com todo acerto, de “ressurreição da carne” (não somente “do corpo”)… Isso significa hoje um compromisso cristão com o corpo, com a carne, em tempos em que se tem feito comum a tortura e a mutilação dos cadáveres dos assassinados. Por isso também devem preocupar-nos não somente os mortos em guerra mas também todos os feridos e mutilados, que levam em seus corpos, ao longo da vida, as chagas do nefasto militarismo de nosso tempo. Isso deve significar também um compromisso com a saúde pública, a boa alimentação para todos e a luta contra a pobreza.

 

Em segundo lugar, a ressurreição de Jesus foi uma nova afirmação da vida. Em sua obra redentora, Cristo não somente conseguiu o perdão de nossos pecados mas também venceu para sempre a morte. “Oh Cristo”, reza um antigo hino alemão, “morte da minha morte, vida de minha vida”. “Nele estava a vida” (Jn 1:3), e sua ressurreição significou seu compromisso com ela diante da morte, até às últimas consequências. Ele veio para dar-nos vida, e vida em abundância (Jn 10:10), e ratificou esse compromisso com sua ressurreição. Por isso, porque em Cristo a vida venceu a morte, os e as cristãs devemos dar nosso maior esforço para que todos e todas desfrutem  dessa vida abundante em todas as suas dimensões (moradia, alimentação, educação, dignidade e esperança em Jesus Cristo como seu Salvador).  E por isso devemos ser “forjadores da paz” (Mt 5:9) contra as forças da morte, guerra e opressão que nos rodeiam.

 

A ressurreição de Cristo significa também seu compromisso com o humano. Chama a atenção que, segundo os relatos evangélicos, o Cristo Ressuscitado não tinha nada de aparência angelical. Maria o confundiu com o jardineiro, os discípulos os confundiram com outro pescador (ambos da classe trabalhadora), e os caminhantes a Emaús acreditam que ele seja um estrangeiro que não sabia nada do que havia acontecido. Nesse relato, também Lucas revela um sentido de humor, sutil e simpático, no Jesus Ressuscitado que caminhava com eles: seu inocente “Que coisas? Contem-me, por favor” (Lucas 24:19), a conversa que segue, na qual eles narram a Jesus mesmo o que havia acontecido com ele, como se ele não soubesse, e a palavras finais deles, “mas ele não o viram” (24:24), estando eles diante do próprio Jesus.

 

Graças a Deus, a ressurreição não nos converterá em anjos mas em seres humanos autênticos. Como o Primogênito dos ressuscitados, não seremos menos humanos; seremos plenamente humanos, ainda mais humanos que nunca. E Lucas nos permite entender que não perdermos esse precioso dom que é o sentido de humor. Podemos estar seguros de que no Reino de Deus também contaremos piadas, com alegria perfeita e infinita.

 

A ressurreição de Jesus inaugura também o processo em direção à Nova Terra, e como tal significa um compromisso com o mundano. Cristo Ressuscitado teve dois pés para caminhar com os caminhantes a Emaús e alcançar-los no caminho, mas ninguém pode caminhar sem terra, mesmo tendo pés. Por que insistimos em alegorizar as ruas da Nova Jerusalém, na Nova Terra? Na primeira página da Bíblia, Deus cria a terra e a declara boa. No segundo relato da criação, a primeira coisa que Deus dá a Adão é terra, um jardim pra cultivar. Cristo proclamou que os mansos herdaram a terra (Mt 5:5); a grande liturgia no céu anuncia que reinaremos com Cristo sobre a terra (Ap 5:10). A ressurreição de Cristo, precursora da Nova Criação, nos obriga a comprometermo-nos com o meio ambiente, a justa distribuição da terra e à adoração ao Criador como momentos necessário em nossa liturgia (Ap 4:4,6,11; 5:13).

 

A ressurreição nos chama a um compromisso como futuro, um compromisso com a esperança. Desde que Cristo ressuscitou, seu Reino é invencível e nada é impossível. Sua ressurreição nos assegura que um mundo diferente é possível, agora em medida relativa e sentido de prenúncio, e finalmente na plenitude de seu reino. O que dizem que “todas as coisas permanecem assim desde o princípio da criação” são os zombadores incrédulos (2 Pedro 3:3-4), não os que estão identificados com Cristo na solidariedade de sua ressurreição. Ao contrário, nosso Deus é aquele que faz novas todas as coisas (Apoc 21:5), hoje, amanhã e sempre. Crer na ressurreição significa solidarizarmo-nos com Deus em Cristo, em seu projeto de transformação radical do mundo.

 

Conclusão

 

A identificação incondicional de Jesus Cristo conosco (solidariedade) é chave para entender a Cristologia, e a Cristologia, bem entendida, é uma poderosa motivação à solidariedade.

 

Em sua encarnação, Jesus assumiu nossa humanidade corporal, nos fez um só corpo, e nos chama a ser também solidários como foi e é.

 

Em sua cruz, a solidariedade de Cristo foi até o extremo, até fazer seus nosso pecado e morte.

 

Em sua ressurreição, Cristo reafirmou sua solidariedade com a corporalidade, a vida e a esperança.

 

Bendición franciscana

Que Deus te abençoe com a inconformidade

diante das respostas fáceis, das meias verdades, das relações superficiais,

para que sejas capaz de aprofundar dentro de teu coração.

 

Que Deus te abençoe com a ira,

diante da injustiça, da opressão e da exploração de pessoas,

para que possas trabalhar pela justiça, liberdade e paz.

 

Que Deus te abençoe com lágrimas,

para que as derrames por aqueles que sofrem dor, rejeição, fome e guerra, 

para que sejas capaz de estender tua mão, reconfortá-los

e converter sua dor em alegria.

 

E que Deus te abençoe com suficiente loucura,

para crer que tu podes fazer diferença neste mundo,

para que tu possas fazer o que outros proclamam como impossível.

 

Juan Stam, 19.01.2007.

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[1] A tradução de 2 Cor 5:21 na Nueva Versión Internacional, “Dios lo trató como pecador”, fica com um sentido diminuído diante do texto grego, huper hêmôn hamartian epoiêsen; “por nós o fez pecado”.

[2] O primeiro capítulo do Livro III (3.1) é completamente novo na edição de 1559, como é também o lugar definitivamente apontado para a união com Cristo em todo o terceiro livro (Barth, Church Dogmatics, IV/3: 552-3).

[3] Sem dúvida estas formulações podem prestar-se para exageros ou mal entendidos, mas captamos melhor sua força e sua profundida, segundo o próprio Calvino, se nos sobrepormos.

[4] Sobre essa passagem, veja-se Stam, Profecía bíblica y misión de la iglesia (Quito: CLAI, 2001), pp. 42-44.

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