O MÉTODO DO RESTAURANTE (para estudar e interpretar a Bíblia) – Juan Stam

Juan Stam. Originalmente escrito em espanhol e disponibilizado em http://juanstam.com/dnn/Blogs/tabid/110/EntryID/107/Default.aspx

Quando vou a um restaurante, sei que vou encontrar um cardápio variado. Eu não iria a um restaurante que servisse apenas arroz ou apenas cenouras. Diante do inventário de opções de um restaurante, chamado “menu”, eu discuto os prós e contras de cada possibilidade: as costelas são deliciosos, mas têm muito colesterol; frango não, porque eu comi no almoço; o peixe não chamou minha atenção, então peço macarrão. O que vai ser, espaguete ou lasanha? Bem, eu tenho que escolher, e eu escolho lasanha, que eu gosto mais. Eu peço e como. Assim também deveria ser o processo de interpretar a Bíblia!

Uma vez, conversei com um irmão que achava que ele entendia perfeitamente todo o Apocalipse. Confessei que havia detalhes complicados, sobre os quais eu não tinha certeza. Ele respondeu: “para você, talvez, mas para mim não”. Então eu dei a ele o exemplo dos 144.000 virgens, “que não se contaminaram com mulheres” (Ap 14: 4). “Isso é fácil”, respondeu ele; “o fundador de nossa igreja explicou isso. São os que não fornicaram com as sete mulheres más do Antigo Testamento”. Surpreendido por sua resposta e total segurança, respondi diplomaticamente: “isso é uma interpretação possível, mas…”, e fui corrigido por meu já chateado amigo: “não, não é possível interpretação, é a verdade e não há outras”.

Eu suspeito que a maioria dos leitores do Apocalipse tendem a optar imediatamente pela primeira interpretação que vem à mente, ao invés de pensar sobre a gama de possibilidades que pode ter qualquer texto, especialmente difícil (144 mil virgens, sete anjos diante do trono, os anjos das sete igrejas, o cavaleiro do cavalo branco, 666). Poucos erros causam tanto dano à boa interpretação quanto optar pela primeira interpretação que vem à mente, sem considerar todas as possibilidades do “menu”. Para romper esse vício e iniciar um bom processo de análise, proponho o método do restaurante:

(A) Primeiro, devemos montar o menu, ou seja, fazer um inventário das possíveis (e até impossíveis) interpretações, para ver toda a gama de opções. A lista pode ser formado a partir do que ouvimos no passado, das opiniões dos alunos e alunas de uma sala, das Bíblias comentadas a que temos acesso, de outros livros que possamos consultar etc. O inventário deve ser o mais completo possível, como ponto de partida para a análise do texto. A opção que você deixar de fora, seja por negligência ou preconceito, pode ser a melhor alternativa e a chave para a interpretação mais fiel do texto…

Os 144 mil virgens em Apocalipse 14: 1-5 podem ser entendidos como as tribos de Israel (etnia judaica; cf. Ap 7), como os judeo-cristãos ou todos os cristãos, como os mártires, as testemunhas de Jeová etc. Que eles são virgens pode significar que sejam celibatários (padres e monges), que são maridos fiéis, que não tenham praticado a idolatria (adultério espiritual), que são cordeiros sacrificiais ritualmente puros, ou que não tenham cometido adultério com as sete mulheres Antigo Testamento. O cavaleiro no cavalo branco tem sido interpretado de umas vinte maneiras opostas: como Anti-Cristo ou Cristo, como o evangelho em crescimento, como a paz ou a guerra etc.

(B) Depois devemos analisar os prós e contras de cada opção, especialmente as razões exegéticas que, a partir do mesmo texto, favorecem ou desfavorecem cada uma das interpretações propostas. Por exemplo: interpretar os “virgens não contaminados com mulheres” como o celibato parece se encaixar bem com as palavras da frase, mas contradiz toda a ética sexual da Bíblia. Por outro lado, “virgens” como esposos fiéis concorda bem com os conceitos bíblicos do sexo, embora não com as palavras do texto. Entendê-los como “aqueles que não praticaram a idolatria” está mais próximo do provável significado da passagem, mas parece estar um pouco aquém da linguagem do texto. Ajuda ainda mais lembrar que quando os sacerdotes iam oficiar no templo, ou quando os soldados estavam em guerra, eles tinham que se abster de relações sexuais. A atividade sexual os teria contaminado ritualmente, não moralmente.

(C) A isso deve seguir-se uma avaliação exegética e teológica de cada interpretação, à luz dos prós e contra, um processo de pesagem das vantagens e desvantagens de cada uma das alternativas. Isso é muito pedagógico quando pode ser feito em grupo. Todos podem qualificar as diferentes interpretações: primeiro, eliminar aquelas de nota “F” (falsa), como, por exemplo, que os 144 mil são testemunhas de Jeová. Então você pode passar à identificação das mais convincentes, dando-lhes notas “A” (aceita, se pode dar por aceita na ausência de novas evidências), nota “B” (muito provável, mas não se pode ter certeza) e nota “C” (quase possível, mas apenas como uma remota possibilidade). Um “D” também pode ser adicionado (duvidoso, embora ainda não seja “F”). Também se pode qualificar como números, de zero a cem: que os 144.000 mil virgens são testemunhas de Jeová tem uma probabilidade zero por cento, que o Cordeiro é Jesus Cristo, 100%.

Este exercício tem duas vantagens. Primeiro, ensina-nos, depois de levar em conta todas as possibilidades, avaliá-las criticamente e nos dá prática em fazê-lo, até que se torne habitual. Em segundo lugar, ensina-nos a manter nossas interpretações e idéias com uma escala de graus variados de certeza. Nem todas as opções merecem a nota “A”, mas aquelas com menos certeza (“B” e “C”) também não devem ser descartadas. Por exemplo, pessoalmente, estou totalmente convencido de que o Cordeiro é Jesus Cristo (note “A”), bastante convencido de que o cavalo branco simboliza o evangelho em crescimento (talvez lhe dê nota “B+”), mas menos seguro da minha interpretação dos 144 mil virgens ou do 666 (nota “C” ou “C+”). É muito saudável aprender a viver com graus variados de certeza, o que é um sinal de maturidade.

(D) Depois de todo esse trabalho exegético, passamos a escolher a melhor opção, sempre com a qualificação e o nível de certeza que lhe corresponde. Este passo sempre terá algo pessoal e subjetivo, em maior ou menor grau. Depois de ser testado pelo fogo do exame, essa verdade bíblica se torna uma convicção para nossa vida.

(E) O último passo é ouvir a voz de Deus no texto e obedecer a Palavra estudada.

Juan Stam, 05/01/2007

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