Conselhos Pastorais a partir de Laodicéia – Juan Stam (tradução)

Juan Stam. Originalmente escrito em espanhol e disponibilizado em http://juanstam.com/dnn/Blogs/tabid/110/EntryID/492/Default.aspx

Deus gosta de pessoas que se definem

A carta a Laodiceia levanta duas questões que nos fazem pensar:

1) Por que é pior ser morno que frio? Em seguida, Deus os exorta a serem fervorosos (3,19), mas nunca deseja que sejamos frios nem mornos. Não deveria ser melhor “morno” que “frio”?

2) De que maneira, ou de que formas, eram mornos os laodicenses? Qual foi o seu calor? O versículo 17, que parece mudar de assunto ou falar de outra congregação, descreve-os como ricos (ou acreditando serem ricos) e muito felizes e satisfeitos. Isso é ruim? O que isso tem a ver com a indiferença deles?

Já assinalamos que o contraste “quente/frio/morno” nada tem a ver com “temperaturas espirituais comparadas” ou com graus de entusiasmo religioso. Baseando-se numa comparação com a desagradável água de Laodiceia, Cristo quer dizer que a postura “morna” deles o enoja. Cristo prefere o quente ou frio ao morno (3.15b), porque esses pelo menos se definem, enquanto os mornos “não são nem chicha nem limonada” (na língua latino-americana – ver Victor Jara – Ni Chicha ni limonada). Os laodiceanos, precisamente por causa de sua acomodação tranquila à sociedade imperial, podiam prosperar e viver confortavelmente. Foi essa atitude indefinida que Cristo achou repugnante. [1]

Hoje, também muitos cristãos tentam refugiar-se na neutralidade. Sua atitude é a do político que disse: “Não sou a favor nem contra, muito pelo contrário”. Quando Dietrich Bonhoeffer começou a se preocupar com o curso do governo de Adolf Hitler, muitos amigos o aconselharam que “é melhor não saber”. Mas Bonhoeffer achava que, como cristão, ele precisava saber, ser capaz de escolher com responsabilidade, o que acabou lhe custando a vida.

Quem conhece a Cristo se depara com uma opção radical, que não permite a neutralidade. Como Josué ou Elias, Cristo nos exige em termos inescapáveis: “Escolha hoje!”. Os molengas e inócuos não entram no reino de Deus, mas antes “os violentos o tomam à força” (Mt 11,12). Cristo, como Elias, nos pergunta: “Quanto tempo vocês ainda continuar com essa jogada dupla? Se o Senhor é o verdadeiro Deus, sigam-no, se o é Baal, é a ele que devem seguir” (1R 18,20 DHH).

Aristóteles ensinou o pensamento ocidental a procurar o “meio dourado”, que muitas vezes encoraja uma alergia contra os “extremos”. “Centrado” é entendido como um adjetivo favorável, “extremista” desfavorável. Mas nem toda a verdade está no centro, muito menos as opções históricas. Não pode haver “meio termo” entre fidelidade e infidelidade, obediência e desobediência.

Quão confortável está ao centro – mas aí também está o diabo. Ter uma atitude ao estilo “meio dourado” em relação ao nazismo, ao racismo ou às guerras de agressão não é ser “centrado” mas covarde. E o Apocalipse nos adverte que covardes não entrarão no reino de Deus (21.8).

Cristãos verdadeiros não podem permanecer neutros!

O pior é sentir-se satisfeito consigo mesmo, sendo indeciso e irresponsável!

Ser cristão é (entre outras coisas) uma vocação política

É muito significativo que a carta a Tiatira (2.26-28) e a Laodiceia (3.21) terminem de maneira muito semelhante. Para os vencedores de Tiatira, Cristo promete-lhes autoridade sobre as nações; aos de Laodiceia, ascender ao trono com ele. É mais significativo porque este septenário, como é típico de João, é subdividido em quatro e três (cf. os selos, cap. 6). Assim, a promessa ao vencedor de Tiatira conclui o primeiro bloco, e ao de Laodiceia conclui todo o septenário. E ambas se concluem com uma promessa de caráter claramente político.

Esta linguagem não deve ser espiritualizada ou despolitizada. Ao contrário do divórcio que costuma ser feito entre o espiritual e o político, o Apocalipse os relaciona em todos os momentos [2]. Ninguém pode ser mais cristão ou cristã do que são na própria vida política de sua comunidade civil. De todo o livro do Apocalipse, é evidente que João de Patmos entende nossa condição de “reis e sacerdotes” como uma vocação para uma responsabilidade cívica, socioeconômica e política radical neste mundo e como uma promessa de reinar com Cristo no mundo futuro [3].

Um tema central da mensagem de salvação, através das escrituras, é o reino de Deus. Para Abraão e Sara, Deus prometeu-lhes uma nação, uma terra e reis (Gn 17.6,16; cf. 35.11; Sl 47.8-10). Para Davi, ele prometeu um reino universal e eterno (2Sm 7.13-16). Jesus veio proclamando o Reino de Deus (Mt 4,17,23). Para os vencedores, Jesus promete autoridade para governar as nações (2.26s) e um lugar com ele em seu trono (3.21). Em seguida, os capítulos 4 a 5 revelarão em detalhes o que é esse trono e, implicitamente, ensinarão toda uma Teologia da Política. Do Gênesis ao Apocalipse, a salvação é, em uma de suas importantes dimensões, um projeto histórico, o plano divino para alcançar um novo sistema de relações entre pessoas e nações, uma nova ordem de justiça e paz.

Os dois ciclos de mensagens para as igrejas terminam com o mesmo tema: a vocação política dos cristãos. Essa vocação e essa esperança devem nos motivar para a responsabilidade histórica dentro de nosso contexto. Se, ao final, reinaremos com Cristo, devemos desde agora viver e agir de acordo com o destino prometido e, ao mesmo tempo, ganhar experiência no campo. Por outro lado, essa esperança escatológica e transcendental deve relativizar, de forma saudável, toda penúltima opção da história, para nunca cair na idolatria ou no absolutismo de um ou outro sistema [4].

Com efeito, uma escatologia política não permite nem a neutralidade nem o conformismo passivo com qualquer sistema. A escatologia dessacraliza ideais e sistemas contra toda idolatria ideológica. Nas palavras de González Ruiz (1987: 191), a expectativa de uma nova cidade vacina contra qualquer tentação do triunfalismo intra-histórico, seja civil ou eclesiástico. Isso dá à ética política evangélica seu caráter profético e iconoclástico.

A escatologia faz da comunidade de crentes uma contracultura no meio de seu mundo. Qualquer “contextualização” que não se faça mais que mera acomodação à cultura é anti-evangélica [5]. Qualquer presença cristã que não seja profética é anti-profética; seu próprio silêncio dá um endosso ao sistema.

Há alguns anos, nos preparativos para uma grande parada protestante em um país da América Central, todos os participantes foram instruídos de que “as mensagens [das blusas e faixas] não deveriam ser condenatórias, mas bíblicas”. Com isso, os organizadores negaram a presença de Amós, Miquéias, João o Batista e de Jesus de Nazaré! O slogan que se deu como exemplo foi “Nós oramos pelos nossos governantes”… Isso é bom, mas não basta orar. Se João Batista tivesse seguido essa estratégia, ele teria enviado uma mensagem bem diferente: “Querido Sr. Herodes, eu estou orando por você, Att., João Batista.” Suspeitamos que mais de um dos bem conhecidos cafés da manhã presidenciais, ou das entrevista com ditadores sanguinários para apresentar respeitosamente uma cópia das escrituras sagradas foi, de fato, uma traição ao nosso dever profético perante os poderes civis.

Cristo Rei pratica o poder compartilhado

Esta última promessa aos vencedores apropriadamente conclui toda a mensagem das sete cartas: o Crucificado ganhou e reina para todo o sempre (Salguero 1965: 365). E ele compartilha seu poder completamente com aqueles que, como ele, venceram por sua fidelidade até o último. Seu poder é absoluto, irrestrito (2.26s), mas ele o compartilha com todo o seu povo fiel (2.26, 3.21). Seu governo é totalmente participativo.

Embora o poder de Cristo seja absoluto, Cristo não é um governante absolutista. Alguns entenderam mal as expressões “governar com punho de ferro” e “fazer [as nações] pedaços como se fossem vasos de barro” (2.27), interpretando o Reino de Cristo como uma ditadura. Ambas as expressões, citadas no Sl 2.9, descrevem a totalidade de sua vitória, não seu estilo de governo. Especialmente no reino vindouro, tais descrições não fariam qualquer sentido (Caird 1966: 46). São metáforas hebraicas trazidas ao NT na citação de um texto messiânico clássico.

O que realmente surpreende é o esquema de poder compartilhado ensinado pelo NT e, especialmente, no Apocalipse. Cristo nos empodera a todos, tornando-nos reis (poder político) e sacerdotes (poder religioso). Longe de permitir que seu trono o distancie de seu povo, ele leva as pessoas ao trono para reinar com ele. Será a perfeita realização de um sistema social participativo.

Aparentemente, o reino messiânico não será dividido em governados e governadores; todos terão que governar juntos. Será o oposto de um autoritarismo ou de uma ditadura messiânica. Embora não possamos visualizar essa ordem social com muita clareza, o ensinamento do Novo Testamento é inconfundível (2 Tm 2,12, Lc 22,29s, Mt 19,28 e muitas passagens do Rev. Rm 5,17).

Cristo continua batendo à nossa porta

Onde quer que haja um coração fechado, há o Cristo que toca e pede entrada. Em um sermão de Natal em Barcelona (1928), Dietrich Bonhoeffer assinalou que Cristo nos alcança em cada um dos próximos; aquele Outro “é o chamado que Deus nos dirige… Aqui está a máxima seriedade e a máxima felicidade da mensagem do Advento: Cristo está diante da porta, vive entre nós em forma humana”. A nós nos cabe abrir ou fechar a porta [6].

Nas palavras do grande poeta Lope de Vega:

¿Qué tengo yo que mi amistad procuras?

¿Qué interés se te sigue, Jesús mío,

que a mi puerta cubierta de rocío,

pasas la noche del invierno oscuras?

¡Oh cuánto fueron mis entrañas duras,

pues no te abrí!  ¡Qué extraño desvarío

si de mi ingratitud el hielo frío

secó las llagas de tus plantas puras!

Cuántas veces el ángel me decía:

“¡Alma, asómate ahora a la ventana,

verás con cuánto amor llamar porfía!”

¡Y cuántas, hermosura soberana:

“Mañana le abriremos”, respondía,

para lo mismo responder mañana!

Por Juan Stam

Revisado em maio de 2018

____________________________________________

[1]) É provável que essa atitude indefinida de Laodiceia tenha seguido a linha do nicolaitismo acomodativo de Pérgamo e Tiatira (e possivelmente de Sardes). González Ruiz (1987: 106) afirma que a indiferença de Laodiceia consistia em um “compromisso histórico” com a idolatria circuncidante.

[2]) Aqui vale lembrar o aforismo de Leonardo Boff: “tudo é político, mas a política não é tudo”.

[3]) No Apocalipse, Juan mostra um conhecimento impressionante do mundo político, social e especialmente econômico do seu tempo e um compromisso muito corajoso para a justiça. Cf Stam (1978/1979)

[4]) Este duplo efeito de motivação e relativização é eloquentemente articulado por Karl Rahner, “Novísimos” (SacrM 4: 917-922; cf 5: 493-508)

[5]) Por exemplo, os defensores do apartheid na África do Sul, durante o auge do sistema racista, apelavam com grande entusiasmo ao princípio da “comunidade homogênea” da escola de crescimento da igreja.

[6]) E. Bethge, Dietrich Bonhoeffer (Bilbao: Desclée 1970) p.168.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s