Dois Paradoxos da Igreja de Éfeso (Apocalipse 2: 1-7) – Juan Stam

Juan Stam. Originalmente escrito em espanhol e disponibilizado em http://juanstam.com/dnn/Blogs/tabid/110/EntryID/474/Default.aspx

Eu conheço seus trabalhos seu trabalho duro e sua perseverança. Eu sei que você não suporta os maus, e que testou aqueles que afirmam ser apóstolos mas não são, pondo à descoberto sua falsidade. Você perseverou e sofreu pelo meu nome sem desanimar. No entanto, tenho contra você que você abandonou seu primeiro amor… Mesmo assim, ainda tem a seu favor abominar as práticas dos nicolaítas, que eu também odeio.

Entre os muitos detalhes fascinantes da mensagem de Jesus à igreja em Éfeso, e as muitas lições que ela nos ensina, dois paradoxos surpreendentes me chamam muito a atenção.

(1) O diagnóstico desta congregação é impressionante: trabalho árduo, rigor doutrinário e perseverança sob perseguição. Mas, se eles tinham perdido seu primeiro amor, como poderiam ser uma igreja tão exemplar? O que a movia a tanto sacrifício e serviço ao Senhor?

Não sabemos qual foi o amor que os efésios perderam (amor a Deus, ao próximo ou outro sentimentos de afeição ou práxis, que é o amor em ação?). Mas a descrição da congregação de Éfeso nos permite supor que continuaram com seus cultos, liam a Palavra, cantavam hinos e evangelizavam. Talvez tenham caído em um ativismo de rotinas religiosas.

Das sete congregações da Ásia Menor, a de Éfeso foi a única fundada pelo próprio Paulo (Atos 19). Com grande zelo e amor (Atos 20), eles evangelizaram a província asiática e fundaram outras igrejas. Mas várias décadas já haviam passado e esse “primeiro amor” fez-se um “amor de segunda geração”. Embora não fosse igual, era suficiente para motivar os méritos que Cristo lhes reconhece.

Poderia ser aquele um caso de “complexo da igreja mãe”, zelosa de seu controle e orgulhosa do sucesso de seu projeto. Dizem que quando alguém perguntou a um pastor batista como sua igreja estava, ele respondeu “não muito bem, mas graças a Deus a igreja metodista está pior”. Rivalidade e competição podem gerar uma idolatria de sucesso (exitolatría), que poderia ter motivado as virtudes da congregação efésia.

Cerca de vinte anos depois, Santo Inácio, em sua carta à igreja de Éfeso, os cumprimenta por seu amor sincero. Parece que eles aceitaram a exortação e se arrependeram.

(2) Mas, se Cristo a declara uma igreja decaída e a exorta ao arrependimento sob pena de perder seu candelabro, tudo por ter perdido o primeiro amor (2: 5), como é possível que ele os parabenize não por algo relacionado ao amor que permanecera, mas por abominar algo em específico, a doutrina e as obras dos nicolaítas (2: 6,14-15)? Como poderia Jesus repreendê-los por falta de amor e depois parabenizá-los pelo seu “ódio” (gr. miseô)? Afinal, o que “amar” e “odiar” significam?

É evidente – e muito surpreendente – que Jesus não vê esse ódio [1] contra o nicolaitismo como mais uma prova de que os efésios haviam perdido seu primeiro amor; pelo contrário, ele vê isso como algo bom, que eles não perderam quando abandonaram seu primeiro amor. Com o adendo “aqueles que eu também odeio”, Jesus aprova e endossa esse ódio. Trata-se, portanto, de odiar com Cristo o que ele odeia, como ele odeia. Como atitude e ação, isso não se resume a uma raiva odiosa ou desenfreada ou mesmo a um ressentimento amargurado, embora tampouco se trate de um simples desacordo passivo. Eu acho que pode ser entendido como um repúdio veemente, expresso em palavras e ações. Corresponde, assim, à função de denúncia da vocação profética.

Os evangelhos nos mostram como seria “odiar como Jesus”. São Marcos diz, duas vezes, que Jesus estava com raiva, uma vez com os fariseus (Marcos 3: 5) e depois com os próprios discípulos (Marcos 10:14). Muitas vezes suas ações e palavras eram fortes e até ofensivas e dolorosas [2]. Com os fariseus ele exauriu o vocabulário dos insultos (Mt 23; 16: 3-4), a Pedro chamou de Satanás (Mt 16.23) e aos discípulos de “desajeitados” (NIV, “insensato”, RVR). Mas em face de falsas acusações contra si, quando tinha todo o direito de se defender, não abriu a boca (Mt 26: 62-63, Mr 14:61). Iluminado pelo zelo da casa de seu Pai (Jo 2:17), agiu com energia profética, mas na hora de se defender diante de seus acusadores, ele se calou. Jesus sabia como ficar com raiva, mas ele também sabia como ficar quieto e perdoar.

Nosso conceito moderno de “amor” como ausência de conflito e confronto difere marcadamente da dialética bíblica entre amor e ódio divino, humano e cristão. No pensamento bíblico, o ódio de Deus é outra expressão do seu amor, como o Deus de amor que odeia e o Deus do ódio que ama. De acordo com as escrituras, Deus ama a justiça e o bem, e justamente por isso odeia a injustiça e o mal. Vejamos:

Textos sobre o ódio e a ira de Deus:

  • Dt 7: 25-26 – Deus odeia a idolatria e nos ordena a odiar também;
  • Sl 5: 5 – Deus odeia todos os que praticam o mal (ver Sl 11: 5,7);
  • Prv 6:16 – Seis coisas que Deus odeia (arrogância, derramamento de sangue, etc.);
  • Zac 08:17 – Aborreço [Deus diz] a mentira, malícia, maldade, falsidade, falso testemunho;
  • Salmo 97:10 – Deus ama aqueles que odeiam o mal

Deus nos manda odiar o que ele odeia:

  • Am 5:15 – Odeie o mal e ame o bem! Faça justiça prevalecer nos tribunais…
  • Prv 08:13 – quem teme ao Senhor odeia o mal (orgulho, arrogância, má conduta, o discurso perverso);
  • Prv 13: 5 – O justo odeia a palavra da mentira;
  • Rm 12: 9 – Odeie o mal, apegue-se ao bem;
  • Mic 3: 2 – Você odeia o bem e ama o mal.

Davi como um exemplo do amor que odeia:

  • Salmos 45: 7 – Tu (Davi) amas a justiça e odeias a maldade; por isso Deus escolheu você;
  • Psa 119: 113 – Eu odeio os hipócritas, mas amo a tua lei;
  • Sl 119: 162-3 – Eu abomino e condeno a mentira, mas amo a tua lei;
  • Salmos 139: 21 – Não aborreceu o Senhor aos que te odeiam e abominou os que te rejeitam?

Estes desafiadores textos bíblicos de nenhuma maneira justificam o “ódio” no sentido moderno, mas, sim, questionam a força do amor que professamos e a integridade do nosso compromisso com o reino de Deus e do evangelho. É uma questão de amor integral, que Camilo Torres chamou de “amor efetivo” (ver Victor Jara – Camilo Torres). Assim estaremos na primeira fila entre os “indignados”, ao lado de nosso Deus e nosso Salvador Jesus, o primeiro dos indignados.

Em grande parte das igrejas evangélicas na América Latina, especialmente nas mega-igrejas, é proibido a questionar o que diz o pastor, e fica ainda pior se esse se crê “apóstolo” ou “profeta”. É uma espécie de mordaça, de censura ao direito de “examinar tudo”. Isso permite que nasçam e cresçam, como ervas daninhas, todos os tipos de especulação e até heresias disfarçada de “verdades” nunca antes imaginadas. Esta acriticidade, especialmente em matéria de exegese bíblica e interpretação teológica, é uma praga na igreja contemporânea.

Por outro lado, e em parte por em função mesmo dessa situação que proíbe a crítica sã, brotam por outros lados a crítica malsã e irresponsável, que tem arruinado muitas congregações e o ministério de pastores e pastoras. A igreja está entre duas pragas, a acriticidade submissa e o criticismo mal intencionado. Ambos são perigosos. Que Deus nos confesse!

_________________

[1] O verbo desorientar significa, sem distinção, “aborrecer” ou “odiar”. São traduções intercambiáveis.

[2] É claro que o mesmo é verdade dos profetas hebreus, de João Batista, de Paulo e do livro do Apocalipse.

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